terça-feira, 5 de setembro de 2017

O Prefácio de 1857(de novo)



Tenho recebido  muitas críticas por criticar Marx e os outros por não reconhecer o papel das idéias,quando ,dizem os críticos,isto não é verdade.É lógico que Marx sabia que as idéias existiam.Quem não conhece a sua famosa frase sobre o pedreiro e a aranha?
O que eu critico ,não só em Marx mas nos seus seguidores é que as idéias são para eles um problema só de conhecimento,não de existência,de axiologia,de sentido.
Ficou evidenciado na história do socialismo,no século XIX mesmo,que a espera da revolução colocava um problema existencial real,se existia vida antes ou depois dela.E a resposta é clara:sempre tem que existir vida,até para fazer a  revolução.
Uma concepção estritamente política  da revolução leva muitos a crer que a sua negação é uma aceitação do capitalismo,do antigo regime,mas na verdade todo o processo de favorecimento da vida,no sentido mais amplo que isto tem,ataca os fundamentos da exploração e prepara uma nova época.
Contudo esta nova época depende de muitos outros fatores a que eu tenho me referido nos textos.Não é apenas isto.
Quando Marx,por exemplo,opõe à ideologia(consciência falsa)a ciência ele afirma que toda idéia que não corresponde à realidade não tem valor ou sentido,mas, embora isto seja verdadeiro para a natureza não o é para a sociedade.
Marx possuía “ incrustações positivistas” como dizia Gramsci.Mesmo na natureza aquilo que não se pode observar não quer dizer que não exista,como é o caso do átomo.
Mas também de Deus:se não é possível prová-lo ,como fato,como objetividade,ele encarna ,seja porque meio for,imaginação,discurso,sentimento,algo eventualmente necessário(e legítimo) na experiência humana finita temporal e fisica.
Ao inverter o processo de conhecimento,Feuerbach,seguindo Xenófanes, afirmou que Deus era “ só” uma projeção do homem no céu.
Marx parece continuar com este pensamento ao dizer “ a religião é o ópio do povo”(que frei Beto diz que não é dele,mas de Kan)t,mas a frase  prossegue com os dizeres conhecidos:” é o respiro da criatura oprimida,o coração de um mundo sem coração”.
Esta predicação aponta para uma legitimação da crença,pois Deus seria uma forma de compensação a um mundo injusto e opressivo.Ainda aqui não se vê a possibilidade de um discurso verdadeiro  e Marx nunca apontou para isto(sempre considerou a desalienação como obrigatória),mas nós podemos e devemos,pelas razões que eu  aduzo agora.
A consciência  falsa nem sempre  significa um desvio moral ou ético,como aquele declarado pelo materialismo histórico ortodoxo:o homem cria Deus para  evadir-se das soluções que ele é capaz de encontrar se se esforçar,conforme a ciência ensina,ou seja,o esforço de conhecer pertence a todos que lutarem para obtê-lo.
Tal é um dos pilares do cientificismo:a ciência vence sempre a superstição,não havendo mais mistérios.O moralismo cientificista se escuda nesta concepção.O cientificismo não atina,porém,que a condição do conhecimento é não conhecer,o mistério,e que isto põe o ser humano diante de um desamparo,que a ciência não pode suprir.
Além do mais não existe nexo causal objetivo entre a crença e a evasão das responsabilidades terrenas,isto dependendo da concepção que cada um tenha da sua relação com o mundo e o seu além.Se o homem constrói este além,o faz de um modo,não o faz de um modo único,ainda que possa pretendê-lo e neste modo,nesta perspectiva, está a responsabilidade terrena.
Na história do cristianismo há tanto a espera passiva do além,como a responsabilidade com este mundo como condição de entrada no paraíso,não sendo outra senão a tarefa que a narrativa de Cristo na cruz propõe.
O compromisso com Cristo na cruz é uma condição do prêmio da eternidade.E é dentro deste contexto que a figura de Deus aparece como um resumo desta narrativa,que se transforma em signo e símbolo de algum objetivo humano pertinente.
A esperança de um além túmulo se faz na mediação humana da compaixão e do compromisso em acompanhar valores e levar as pessoas a um juízo final.
O que o cientificismo, e o marxismo dentre eles,não percebeu, foi esta realidade trans-histórica:a busca da escatologia é mediada,dentro de uma escolha,por uma relação com o seu próximo,coisa que ,deixada de lado a crença no paraíso,vale para o ateu de bem,para o cientista de boa índole.
Deus é uma narrativa,como qualquer outra que propõe um signo e um símbolo,que mesmo o não-crente,tem que considerar nas suas relações positivas e sociais.A extirpação desta crença como condição de progresso é o erro do marxismo(mas não só dele),que fundamenta os crimes posteriores,no mínimo,na esfera psicológica.
Ao totalitarismo da Igreja ,que diabolizou aquele que não a seguia,o marxismo opôs um totalitarismo semelhante,afirmando a culpa do alienado,daquele que não lutava contra  a exploração.
O símbolo,cuja significação etimológica é “ aquele que une”,é atacado pelo “diabolo”,o que separa.Àquele que racionalmente(mas seguindo a fé[o coração]{Santo Agostinho])segue a igreja é atrapalhado pelo hedonismo deste último que exige o prazer como modelo e como finalidade.Assim a Igreja criou a justificação da vocação imposta.
O marxismo,ao não compreender as idéias,o discurso legitimo que deriva do sujeito,a imaginação,como fato subjetivo e “material”,que une as pessoas,entrou pelo mesmo caminho,reprimindo a religião,como alienada ,bem como quaisquer ilusões  que separavam o homem de sua auto-realização.
A pura crença não é alienante,o que o é, é a superstição,mas mesmo esta sob o tacão do fetiche que torna o homem dependente do que está fora dele.
O mecanismo da superstição,bem como a consciência falsa,foi legitimada por Freud na psicanálise,na medida em que,diante de um mundo complexo,o homem ainda precisa de “concepções “ improvadas para dar sentido e significado a si mesmo,como sujeito.
È impossível ,diante de uma realidade infinita(cada vez mais)que o homem seja absolutamente racional,causal,o tempo todo,sendo isto uma perversão,ou antes um desvio,este sim,da natureza humana.
Isto é como uma perseguição do tempo,da fuga cósmica,algo irrealizável.Como Kant demonstrou “ a coisa em si” a Physis,é impossível de alcançar.Talvez todas as degenerações partam desta ilusão,inclusive aquelas próprias do marxismo.
Todas estas ilusões,todo a linguagem,a axiologia,tudo emana do sujeito,que constrói a sua existência,real,para além da “ necessária”, materialista.Diferentemente do símbolo que é Deus,que comunica através dos homens a exigência da relação,o que é a materialidade?Quando se diz “ matéria” estamos nos referindo a algo abstrato,physis,que se manifesta não de uma forma só,mas de várias.
Aqueles que puderem assistir ,assistam ao filme “ Lawrence da Arábia”,assistam.Lá no inicio,quando Lawrence ,como enviado inglês ,encontra o príncipe Faissal,ele procura ser demagógico com este último tecendo loas às virtudes dos beduínos,que amam o deserto,o céu estrelado ,ao que Faissal retruca:”no deserto não tem nada e ninguém ama o nada”.
Da mesma maneira que não adiantou Santo Agostinho separar a figura do pecado do pecador,pois estes foram sistematicamente perseguidos e queimados,a convivência cristãos e comunistas sempre foi difícil,porque o fantasma da alienação punha este últimos como potenciais algozes(e algozes de fato)dos cristãos.
Ainda que o PCI  houvesse amainado isto,persiste hoje a desconfiança em vez da fraternidade.


sábado, 19 de agosto de 2017

Esclarecimentos sobre o comunismo de Marx e suas origens



Continuando o artigo anterior e por necessidade de mais esclarecimento,devo falar um pouco sobre o que realmente é o fundamento do comunismo de Marx,que não começou com ele.
Eu estudei o Iluminismo alemão na figura de Gothold Ephraim Lessing ,bem como outros autores,para encontrar as origens do comunismo moderno,sobre as quais já me referi em outros artigos.
A frase básica do comunismo é:”De casa um segundo a sua capacidade, a cada um segundo a sua necessidade”.
Esta frase está presente na obra de um Morelly,que em 1755,em seu livro “ Code de La Nature” repetiu uma frase comum aos evangelhos e a outros pensadores do século XVIII:distribuir a riqueza segundo as necessidades de cada um.Todos trabalham e distribuem o fruto do trabalho segundo as carências individuais.
Nos Atos dos Apóstolos 34:32.35 está dito lá:” todos devem trabalhar e em 35 :todos receber segundo suas necessidades”
Segundo o comunista materialista Theodore Dezamy em 1842,em sua obra “ Code de La Comunautè” a frase de Morelly seria a seguinte:
"Fazer o possível. Tomar o que necessitar presentemente."
Louis Blanc em sua “ Organisation Du travail” de 1839 usou a expressão:
"De cada um conforme seus meios, a cada um conforme suas necessidades" ("De chacun selon ses moyens, à chacun selon ses besoins") que é uma versão modificada de Henri de Saint Simon :
"A cada um conforme suas capacidades, a cada capacidade conforme suas obras" ("À chacun selon ses capacités, à chaque capacité selon ses œuvres").
E mais, Ettienne Cabet em sua “ Viagem à Icária” de 1840: "A cada um segundo suas necessidades. De cada um segundo suas forças" ("À chacun suivant ses besoins. De chacun suivant ses forces").Esta fórmula foi a que repercutiu mais na Revolução de 1848.
O acréscimo de Marx é efetivamente mais profundo,mas a sua filiação é claríssima.
Eu procurei no último livro de Lessing “ A educação da Raça Humana”,uma frase semelhante e não encontrei,mas é óbvio que em toda a sua exposição ele chega à conclusão de que no desenvolvimento mental da humanidade,a tendência é se relacionar com Deus pela prática e que as ações práticas,sociais devem consagrar uma justiça divina não-idolátrica,mas real ,em que cada um recebe aquilo que é necessário para viver,de forma equânime,numa visão de comunidade comunista,que seria o fim da História da humanidade.
A última encarnação desta frase é o que diz Marx na “ Crítica ao programa de Gotha “ de 1875: "Na fase superior da sociedade comunista, quando houver desaparecido a subordinação escravizadora dos indivíduos à divisão do trabalho e, com ela, o contraste entre o trabalho intelectual e o trabalho manual; quando o trabalho não for somente um meio de vida, mas a primeira necessidade vital; quando, com o desenvolvimento dos indivíduos em todos os seus aspectos, crescerem também as forças produtivas e jorrarem em caudais os mananciais da riqueza coletiva, só então será possível ultrapassar-se totalmente o estreito horizonte do direito burguês e a sociedade poderá inscrever em suas bandeiras: De cada qual, segundo sua capacidade; a cada qual, segundo suas necessidades”,
Mas antes em Salário, Preço e Lucro, de 1865, Marx explica a razão dessa bandeira:
"(...) ainda abstraindo totalmente a escravização geral que o sistema do salariado implica, a classe operária não deve exagerar a seus próprios olhos o resultado final destas lutas diárias. Não deve esquecer-se de que luta contra os efeitos, mas não contra as causas desses efeitos; que logra conter o movimento descendente, mas não fazê-lo mudar de direção; que aplica paliativos, mas não cura a enfermidade. Não deve, portanto, deixar-se absorver exclusivamente por essas inevitáveis lutas de guerrilhas, provocadas continuamente pelos abusos incessantes do capital ou pelas flutuações do mercado. A classe operária deve saber que o sistema atual, mesmo com todas as misérias que lhe impõe, engendra simultaneamente as condições materiais e as formas sociais necessárias para uma reconstrução econômica da sociedade. Em vez do lema conservador de: "Um salário justo por uma jornada de trabalho justa!", deverá inscrever na sua bandeira esta divisa revolucionária:´Abolição do sistema de trabalho assalariado!´".
Recapitulando,com o que eu já disse nos meus artigos:diante da primeira onda industrial,cujo ápice foi 1750(Hobsbawn,” A era das revoluções”)ficou transparente para todos que a capacidade produtiva do ser humano era infinitamente exponencial(a nossa era ecológica desmente um pouco isto)e que a razão pela qual o  homem vivia numa sociedade de classes era  a escassez.
Em priscas eras,a dificuldade de produção de bens para toda comunidade primitiva a manteve neste nível de igualdade comunal.Contudo,havendo um excedente,uma “ produção”,já foi possível discutir quem deveria receber o quê e em que quantidade.Até este século XVIII,da exponencialidade,a questão das necessidades de cada um não era colocada,porque ,embora houvesse um excedente,este não era capaz de suprir a todos,numa escala de tempo  muito extensa.Então este excedente foi tomado pelas classes militares,as aristocracias aliadas e o setor ideológico da religião.
Ao se colocar diante de novas possibilidades viu-se que superada esta escassez a sociedade de classes,calcada numa divisão de trabalho(injusta)não haveria mais necessidade destas diferenciações.Ponto.
Isto é uma verdade,mas não uma verdade logicamente inevitável,uma lei do desenvolvimento da sociedade.Isto é uma constatação.Em torno dela teorias,pretensas ciências, se colocaram para entender a sociedade e defender o seu inevitável  caminho em direção à sociedade comunista.
Eu abordarei os outros autores proximamente.O que me interessa é o mais notório deles,Marx.
Para Marx a construção desta sociedade comunista deriva de leis dialéticas do desenvolvimento da sociedade.E mais do que isso a sociedade que engendra as condições para se chegar a ela deve ser repelida,como uma sua barreira.Que barreira é esta?
Conforme nós vimos nas citações acima o modo-de-produção capitalista supera todas as barreiras feudais que impedem a produtividade imensa da indústria ,mas acrescenta uma outra,própria dela:a exploração capitalista que aliena o homem produtivo,operário,em favor de uma classe ,a burguesia,em favor dela própria.Os produtos do trabalho são vendidos no mercado na capitalista em função do lucro que mantém a burguesia,a qual não devolve aos verdadeiros produtores ,aquilo que eles fizeram,no que se chamou de alienação.
Os operários,os trabalhadores,os produtivos,enganados por formas de consciência social puramente ideológicas e falsas,não lutam contra esta exploração,mas a acham natural.O movimento comunista e a ciência que o informa,devem(de fora para dentro)adquirir consciência da alienação e ,através de uma revolução,superá-la,bem como a exploração.
Mas,dentro de uma visão dialética,dir-se-ia “ objetiva”,é preciso que o capitalismo se desenvolva ao máximo produzindo cada vez mais  e criando cada vez mais uma classe operária produtiva e majoritária que seja capaz de fazer esta mudança qualitativa.
Aqui já tem um qüiproquó:este movimento é inevitável ou depende de uma tomada de consciência?A resposta só pode vir de uma dialética que une os dois momentos,mas mais do que isto, a classe produtiva tem a possibilidade de tomada de consciência do problema ao criar as condições materiais para fazer esta mudança,não antes da revolução,mas depois dela(Lênin).
Tendo já demonstrado os problemas que esta visão voluntarista de Lênin cria,o que procuro fazer é,voltando aos fundamentos filosóficos do comunismo,entender a sua suposta necessidade.
A questão da alienação
O fulcro do problema é que ,derivando do Prefácio de 1857,Marx entendeu que a infraestrutura econômica funda a superestrutura das idéias que separam o trabalhador do movimento de libertação.
As conquistas da filosofia,dos saberes sociais,revelaram que a superestrutura não é mero reflexo da realidade econômica,mas uma produção social,independente,cultural,que transcende(Kant)os problemas especificamente materiais.
Então,se nós levarmos ao pé-da-letra,acriticamente,o pensamento original de Marx, nós teremos que chegar à  conclusão de que toda a cultura,toda a existência sob o capitalismo é inautêntica,ilegítima,posto que resultado do processo geral de exploração e de alienação.
Se o trabalhador,eu pergunto,toma consciência desta alienação,ele continua alienado ou não?Numa apreensão da inevitabilidade do comunismo como solução disto tudo,temos que dizer que ele continua alienado,inclusive Marx,numa existência inautêntica.
Na descrição feita por Marx do comunismo,na “ Ideologia Alemã”,somente quando os trabalhadores tiverem o acesso real a todos os bens produzidos socialmente,é que serão livres de toda exploração e toda alienação.Quando qualquer um puder usufruir de qualquer coisa,fazer qualquer coisa ,aí a existência ganharia autenticidade?
Como imanentista(como todo materialista) a resposta de Marx parece ser positiva.Mas a verdade é que não é,ele afirmando ou não.Posteriormente tratarei mais profundamente da questão da alienação,mas como conclusão ou premissa(conclusão em relação a este artigo e premissa de futuros)é lógico que esta visão de Marx está ultrapassada,pois as idéias guardam autonomia e a vida individual autônoma do sujeito não é resultado desta lógica dialética do desenvolvimento humano.
Para o ortodoxo isto funda um egoísmo,mas a realidade da existência é que há uma discrepância entre a vida autônoma do sujeito e a vida social,uma autonomização crescente.Se é verdade que isto funda um egoísmo,por outro a história e o tempo  expressaram que o processo revolucionário não é tão inevitável assim e que os ganhos dos produtivos,no interior da sociedade capitalista, valem por si próprios e garantem uma existência autêntica,na medida em que  as promessas totais da sociedade comunista,não são,nem psicologicamente,condição desta autenticidade e até mesmo do bem viver.
O que fazer se a revolução não é inevitável?Viver no pecado do egoísmo ou entender que a vida produtiva,material e culturalmente falando,ajuda o progresso?O cidadão deve,como socialista, se sentir culpado,como um católico se sente?
Esta é a razão do fenecimento das revoluções no ocidente.Até certo ponto a consciência da alienação desaliena e somente existe alienação no plano concreto,razão porque Marx,sem abandonar a alienação em geral,falou em fetichismo da mercadoria no final da vida e depois de “ O Capital”.
Contudo é preciso dizer:a autonomia das idéias e do sujeito puseram por terra o edifício  ortodoxo de Marx.Mesmo os próceres da segunda internacional,que enveredaram pela inevitabilidade do comunismo,como decorrência do desenvolvimento do capitalismo,erraram.
Então o que sobra?
Sobra o fato de que a elevação exponencial da capacidade produtiva da sociedade é real,mas ela só será possível numa sociedade educacionalmente evoluída,homogênea quanto aos seus objetivos.O que ainda hoje excita a imaginação dos militantes em direção ao Marxismo  é a constância e aumento das crises do capitalismo analisadas e previstas por ele,mas no que tange à sociedade comunista ela só é factível se as condições objetivas e subjetivas estiverem presentes.Senão as violências se repetirão.
Marx,antecipando Lênin,admitia que para chegar ao comunismo era preciso muita violência sobre os setores atrasados e contrários da sociedade capitalista.Após os crimes do século XX,esta visão não vai prosperar e não deve.
E eu ainda aduzo uma outra questão decisiva,que foi percebida por Deng Xiao Ping e os chineses,que são citados no ocidente de forma falsa e mal compreendida.O princípio de um “ país e dois sistemas” vai de encontro a um valor muito favorável ao capitalismo:nenhum regime universal na História angariou unanimidade absoluta,mas a escolha é algo de que o homem não tem como se arredar.Este é um tema para um outro artigo,mas a questão é esta:será que a utopia não é esta escolha?


Esclarecimento sobre a luta de classes



Fiz um artigo que teve uma certa repercussão,inclusive no youtube,sobre a concepção de luta de classes em Marx.Um “ filósofo auto-arrogado”(ortografia certa)fez observações e não me citou.Eu devo esclarecer aqui o que eu disse e o que eu penso sobre esta questão toda em Marx.Antes de tudo,no entanto,tenho que dizer que  não sou original,muitos pensadores no passado,até ortodoxos,já tinham expressado visões diversas e críticas em relação ao pensamento de Marx.Mas como eu tenho posto inúmeras vezes,como petição de princípio e premissa metodológica, um pesquisador como eu tem o dever de atualizar as concepções sobre qualquer coisa,a partir de novos conhecimentos e novas realidades da prática.Se ele encontra novas possibilidades de interpretação deve expô-las,mesmo que isto não acrescente  nada ao esforço crítico,porque é sempre bom reforçá-lo.
A minha atitude aqui é oferecer novos argumentos,para novas gerações que seguem Marx sem lê-lo e causam nos movimentos,juntos com seus velhos líderes,problemas terríveis,como os que vemos na Venezuela e vimos no Brasil de Lula e Dilma.
Uma concepção mal compreendida da luta de classes ,e eu já entro no tema do artigo,faz ver a estes movimentos que apoiar pura e simplesmente a “ classe operária produtiva”(única produtiva)é a solução dos problemas nacionais,quando esta só virá quando todas as classes estiverem envolvidas,mesmo porque,objetivamente,estão interligadas.
Eu falei certas coisas  nos últimos 5 anos que agora são consenso entre os analistas:desta crise nós só sairemos(uma crise criada pelo PT)se todos os atores sociais participarem e fizerem sacrifício.Ainda que isto pareça óbvio,como o piu-piu se encontrar com um “ lindo gatinho”,o frajola, é importante e necessário ressaltar sempre e pelas razões supraditas.
A definição de dialética moderna(não a platônica ,que é diferente),suposto fundamento do movimento geral,característica fundamental das sociedades industriais modernas é esta:um ente,um Ser, se define na relação com o seu oposto.A integração e a reintegração  do Sujeito e do Objeto no espírito absoluto,que ninguém sabe bem o que é,marca o movimento de produção do conhecimento(Hegel).
A subjetividade(agora estamos em Marx),na práxis ,tem como seu contrário a natureza,que é transformada em bens(Mercadoria)por ela.
Voltando a Hegel e citando a sua Filosofia do Direito,o contrário da carência,especificamente a fome, é o ingerir alimentos(para ser mais genérico e categorial):o movimento de satisfação se dá na integração entre estes dois momentos,que retornam depois e assim sucessivamente.
Quando eu disse que o “ Manifesto Comunista “ estava errado ao localizar o movimento da História na violência da luta de classes eu quis dizer o seguinte:dentro de uma compreensão dialética (que talvez[eu disse talvez]Marx não tenha compreendido bem)a relação entre as classes é que garantia este movimento pois não existe classe burguesa sem proletariado e vice-versa,bem como,na nossa contemporaneidade,nenhuma classe existe sem a outra.A classe média, tão culpabilizada por aí,depende da classe burguesa industrial,a qual depende,dialeticamente,da classe burguesa comercial e assim sucessivamente.
Este fato,é lógico,não era estranho a Marx,mas existe uma verdade que as pessoas que não estudam o Marxismo e falam sobre ele,não sabem:Marx não defendia uma objetividade científica,mas era conectado a um realismo factual,derivado de Aristóteles.Marx era profundamente aristotélico!Os apologetas de Marx sempre o compararam a Aristóteles,sempre.E  “O Capital” começa com uma distinção que está no livro de Economia do estagirita:” Valor de uso e valor de troca”.Marx em “ O Capital” usa o método racional dedutivo aristotélico de decomposição da Mercadoria em Geral para as suas múltiplas determinações,acrescentando os conceitos hegelianos de totalidade e...dialética.
O que o leva às lutas de classe dos historiadores franceses da restauração,que tinham estudado as contendas das revoluções inglesas e francesa é este pressuposto aristotélico de que as coisas ,os fatos,possuem forma e conteúdo(aparência e essência[forma e substância]).Ele usa o termo conteúdo porque não considera factual o termo substância.
Ao principio de transformação dos seres em Aristóteles,em que a mudança da substância causa a mudança da forma,Marx opõe o movimento que vai do conteúdo,que se relaciona com seu contrário,a forma, a uma nova ,na medida em que ele(conteúdo)adquire mudanças quantitativas.
Como na dialética da natureza(muito discutível também)às mudanças quantitativas corresponderiam mudanças qualitativas ,num movimento constante.
Ocorre, e eu já afirmei isto também,que Marx,como todo cientificista do passado,usa o paradigma da natureza para servir de modelo da sociedade,mas o desenvolvimento da sociologia e de outros saberes demonstrou e continua a demonstrar que tal “ modelação” não é possível,não se prova.
Aliás a desconstrução deste modelo natural começa com o indefectível Kant,porque ele mostra que o objeto é constituído pelo Sujeito,na sua famosa “ Revolução Copernicana em Filosofia”,não sendo ,pois, a natureza,com suas “ leis constantes” ,a base  da ação humana,mas  a atividade consciente do Sujeito.
Marx ,como Nietzsche Et al,criticam o filósofo de Konigsberg,mas só a partir dele puderam entender parte da realidade como atividade do Sujeito .
Se levarmos em conta uma visão bem fundada da dialética ,o que move a História é a relação ente as classes,como percebeu a prática da social-democracia no século XIX e a segunda internacional.
A revolução não aconteceu conforme as previsões do “ Prefácio de 1857” porque não há uma dialética entre forma e conteúdo na sociedade,mas integração e desintegração entre as classes,colaboração e luta constantes para constituir o movimento social e histórico.
Mas como acontece nas outras formas concretas de movimento a dissociação é condição de integração:o sujeito e o objeto precisam se diferenciar,se “quiserem “ se integrar,no movimento do conhecimento.
Nos dias atuais,inclusive,analistas relacionam a dialética com Kant e dizem ,em favor dele,que ela é provada como produto da consciência,porque ela só se dá quando o Sujeito toma a decisão de se relacionar com o “ outro de movimento,o outro de oposição”.Mas isto é uma outra discussão.
Assim a dissociação entre as classes,na História,é condição de sua integração e de seu movimento real,sendo a luta,uma paralisação.
Foi isto o que eu disse.Não é como certos sujeitos no youtube,que falaram sobre isto, associando com o interesse pragmático das classes colaborarem.Isto é uma manifestação concreta,especifica do processo todo,mas a integração essencial se dá na relação reivindicatória entre as classes,e esta observação ataca não a  direita,mas a esquerda que (também) não lê Marx(pelo menos com espírito crítico,não é?)e fica achando que eu estou defendendo a  aceitação do estado burguês,do status quo,nada disso.Eu estou dizendo que a forma de atuação é diferente,dentro do pressuposto dialético.
Uma das provas desta verdade é a arte,de modo geral.Toda a vez que se intentou fazer uma arte de classe ,como nosso CPC aqui na década de 60,deu tudo errado.O teatro político de Piscator,que é o esteio  do teatro de Brecht,sempre trabalhou com personagens e estórias em que as classes estão envolvidos ,num processo cultural e simbólico,mais importante do que a “ objetividade das classes” e da “ consciência (objetiva[eu digo])de classe”(Lukács).
E os artistas,os bons artistas,de um lado e de outro,quer dizer,à esquerda e à direita,sempre trabalharam com esta realidade.
Buchner,em Woyzek;Nelson Rodrigues,com sua visão de direita nunca deixou de ver o problema social(a direita não é monolítica)e assim outros exemplos.
Se a consciência humana se diluísse na realidade objetiva e dialética da classe,o suposto reconhecimento do estado proletário polonês da classe operária a teria desviado do catolicismo.Foi isto o que ocorreu?
À esquerda velha para responder.E à direita também.

domingo, 6 de agosto de 2017

O marxismo na batalha das Idéias.Marx e Kant II

“Enquanto tem gente no mundo
Pensando que sabe muito
Eu,do meu lado,sinto.Muito”



Também é preciso ver que durante muito tempo,pela identificação  entre Filosofia e metafísica ,o fim desta última,percebido paulatinamente no século XIX,induziu a muitos,como Marx,a pensar no fim do pensamento filosófico.Mas a metafísica repudiada retorna às vezes sob outras formas ,inclusive no marxismo(mas não só nele),por causa da incompreensão da história da Filosofia e do pensamento.
Eu disse no artigo anterior que o marxismo é idealista e ideológico sob certo sentido,porque preconiza  uma sociedade ideal,medida da sociedade real;uma sociedade do futuro,medida do presente e do passado(que deve ser revisado).Este argumento eu aprendi de Servant  Schreiber em seu livro “ A Tentação Totalitária”,publicado no Brasil na década de 70.
Mostrando as filas na URSS(bem como nos outros países do Leste europeu),diz ele:” comparado com uma sociedade ideal,a sociedade capitalista,de hoje ,deve ser muito ruim...”.É lógico que Servant Schreiber,como representante da direita,não mostrou as favelas do “ mundo livre”,mas a sua a sua peroração vale sim para a falta de fundamento filosófico das afirmações de Marx.
As citações de Kant contidas na “ Ideologia Alemã” são a base dos erros de Engels e de Lênin,porque ele só vê o seu  projeto metafísico  e não as possibilidades  da relação entre a prática e a razão,a continuidade ,na experiência humana geral,entre a razão e os muitos elementos constitutivos da personalidade do Sujeito humano,os desejos,a sensibilidade, a percepção,os afetos,as emoções,o inconsciente(que ele não conhecia).
A resposta positiva de Kant, para a filosofia radicando na autonomia do sujeito,na simples razão,abre espaço para as massas de Marx.
Jon Elster num crítico livro sobre o marxismo,afirma que ele  é o pensamento que menos conhece a natureza humana e bastavam(isto eu digo) duas frases ,de dois teatrólogos,um brasileiro e outro inglês,Nelson Rodrigues e Shakespeare,para derrubar as limitações racionalistas de Marx,respectivamente:” O homem vive do supérfluo” e “O homem quer mais do que a realidade”(Rei Lear).
Kant não pode ser visto como um idealista,muito menos ideólogo,talvez só no seu projeto metafísico,mas o estudo profissional de seu pensamento revelaria muito mais.
Um outro autor,Bob Jessop,disse uma vez que “ quando a dialética(objetiva[digo eu])se estilhaçou todos os temas e partes do pensamento de Marx foram junto,perdendo unicidade(“ “State Modern Capitalist”)e eu  somo:Marx foi enganado pela possibilidade suposta de unir várias profissões num discurso só.Na biografia de Isaiah Berlin,está dito que Marx era como um Leonardo da Vinci,uma enciclopédia de vários saberes.Afirma ele que Marx separava o seu escritório com cordas e em cada lugar punha uma etiqueta ,onde se lia a função de cada um,a “ciência” própria,Filosofia,Economia Política,Política,Ciências naturais e assim por diante.
Marx,pois,era como uma libélula colocando o traseiro ,de quando em vez,na água,sem se aprofundar na mesma.Sartre poderia dizer:” toca nas coisas mas não as habita”(eu digo:não as ama).
Isto trouxe conseqüências graves para seu pensamento,porque o marxismo vê o mundo como um lugar de causas e não de sentidos.Como hiperracionalismo ele vê parcialmente o mundo.
Chaplin diz no discurso final de “ O Grande Ditador”:”Pensamos muito e sentimos pouco”.Vale para Marx.