domingo, 17 de junho de 2018

Mais provas do diletantismo filosófico de Marx II


Resolvi voltar aqui ao tema porque,como sabem,eu busco fundamentos para o que eu digo e procuro mostrar como a realidade da esquerda brasileira nas redes( e em todo lugar) é o atraso,já que ela ignora estes temas e repete coisas que já foram contestadas no passado.Eu não sou original,procuro usar(como todo mundo)uma base sólida e fazer atualizações e interpretações que possam acrescentar alguma coisa ao pensamento em geral e ao marxista em particular.
Tenho me referido à dialética como uma inexistência e já usei como fundamento as afirmações de Popper.Agora eu encontrei Lucio Coletti,em seu livro “ Ultrapassando o Marxismo”.No capitulo 8,intitulado “O marxismo e a não-contradição”,Coletti diz entre outras coisas:
“ ao reivindicar(às ciências)esta presumida’ dialética da matéria’(que deveria ser aplicada às ciências esclareço eu)o marxismo não só não acrescentava nada de novo [...]ao que Hegel dissera na filosofia da natureza ,como subentendeu-o”.
A “ dialética da matéria”,diz Hegel,é uma forma de pirronismo,um ceticismo quanto a existência,sensivelmente perceptível,dos objetos externos.Se ,pois,numa filosofia idealista,como a de Hegel,tem um papel,numa ‘ dialética da matéria’,que reivindica o materialismo,isto é puro não-senso”ou contra-senso digo eu.
É aquilo a que eu tenho me referido aqui:a pura oposição dos termos ,de termos e seres diferentes não significa contradição.Marx,Engels,Lênin,Mao nunca entenderam esta realidade,diz Coletti.
Este autor diz:”Um breve exemplo pode nos ajudar a compreender.Nos Cadernos Filosóficos Lênin apresenta  exemplos de oposições(digo eu, seguindo Engels em “ A Dialética da Natureza”).+ e -,ação e reação,diferencial e integral.É um erro grosseiro.[...].Como Kant demonstrara 150 anos antes a respeito de Newton estas não são oposições reais.”
E Coletti conclui:”A esta altura a contradição inconciliável entre ciência e a  dialética atinge o próprio Capital”.
Aqui é onde eu queria chegar.As minhas dúvidas sobre a estrutura de O Capital começam nestas questões.Se a dialética da natureza não existe e foi aplicada à economia,devem haver erros fatais neste livro.No blog Temas eu tenho falado sobre isto e vou continuar.

domingo, 10 de junho de 2018

Mais provas do diletantismo filosófico de Marx



Lendo o livro de Luciano Gruppi,marxista italiano,”O conceito de hegemonia em Gramsci”,deparei-me com estes parágrafos,a respeito das relações entre Benedetto Croce  e Gramsci:
“ A operação realizada por Croce-que consiste em por o abstrato no lugar do concreto,o conceito ou pensamento do homem no lugar da realidade natural ou social-é a típica inversão idealista.A essa inversão de tipo idealista Marx  já se referia  em “ A Sagrada Família”:” Se das maçãs,peras,morangos e amêndoas  reais formo a representação geral “ fruto”;se vou além e imagino que o ´fruto´ da minha representação abstrata,extraída das frutas reais,é uma essência existente fora de mim e ,aliás ,a  essência verdadeira da maçã ,da pêra e da amêndoa ,declaro-com expressão especulativa-que o fruto é a substância da pêra ,da maçã e da amêndoa”-Temos aqui o procedimento idealista.
“ O essencial nestas coisas-diz Marx-não seria a sua existência real,intuível sensivelmente ,mas a essência que extraí delas e a elas atribuí,a essência da minha representação,o  ‘fruto’.Declaro então que a maçã,pêra,morango e amendoa  são simples modos de existência ,modos do “ fruto”.
E conclui Gruppi:” Assim procedia Hegel  e assim procede  Croce:no lugar de Dante e Shakespeare põem a poesia,o conceito abstrato.É o velho raciocínio platônico”.
Vamos por partes:isto tudo é uma meia verdade.Mas do ponto de vista da história da Filosofia e do pensamento de alguns autores que fazem parte dela,é uma confusãosinha.
O pensamento abstrato que extrai os modos do ser deriva do pensamento de Aristóteles,que é,segundo Popper,a matriz do pensamento de Hegel( e eu digo de Marx e de Croce).Platão pensa de modo diferente:as idéias,que correspondem ao traçado geométrico do universo,existem por si mesmas e são o modelo deste universo ou antes,para alguns,são  este universo,daí que se chama a filosofia de Platão o “ realismo das Idéias”,uma discussão interminável e até hoje inconclusiva.Platão separa a razão da sensibilidade,o que é impossível.
Aristóteles era,diferentemente de seu mestre Platão,um observador da natureza, a qual,ele via,se modificava,segundo os critérios formais dele,do filósofo.Mas neste aspecto a abstração tem um contato,pelo modo de mudança,com a realidade.
Quando Aristóteles(e os outros citados)se refere aos modos do ser ,às suas diferenças,está se referindo a algo real.Ele pensa,e aí Marx tem uma certa razão, que existe uma adequação do conceito na  consciência com  o real,identificando a essência abstrata da coisa,do Ser,com a sua substância real,que não é intuída senão como algo real.A observação é algo,retenhamos aqui, real,que contacta o real mesmo,nas suas manifestações.
Mas quando,no mundo moderno,a noção de movimento e de tempo,estão solidificadas,a relação entre a consciência ,que elabora o conceito, e o real, adquire contornos mais complexos.A intuição é um processo(mnemônico inclusive)que ,para além da pura observação racional,inclui um sujeito participante e atuante(antropologia do trabalho e linguagem subjetiva).
O que Marx não entendeu,pelas razões a que eu já aludi em outro artigo,é que este processo de tempo,de passagem das coisas não se resume na antropologia do trabalho,na atuação qualquer que seja ela(política,social),mas atinge a linguagem subjetiva.
Já me referi ao fato de que conceber isto era difícil nesta época,citando Habermas,mas,analisando as afirmações fixadas no inicio,e conhecendo a filosofia,como deveria conhecer um bom estudioso dela,era possível notar que a linguagem do conceito fruto não é apenas tido como produto da consciência(sem conexão com o real).Isto podia ser verdade para alguns filósofos,mas não todos.Ao dizer “ fruto” estamos nos referindo `a ” frutificação”,algo que já frutificou e já está maduro para ser consumido.Por metáfora se diz que o nascido(como Cristo)é  um “ fruto do ventre”,mas isto diz respeito à arte,à narrativa,à descrição histórica e sociológica.
A percepção do tempo indica mais que observação racional,mas sensibilidade real para apreender um fenômeno do mundo(natural e social).É uma sensibilidade,uma experiência,a ser entranhada pelo sujeito(que é constituído por este entranhamento).
Então quando determinados padrões  forem definidos,como este de “ fruta”,são extraídos não só pela razão,mas por ela e a sensibilidade de perceber,pelos sentidos do corpo,como algo real.
Se nós formos na etimologia da palavra fruta,até chegar na comunidade primitiva,pode ser que ela ,ou a palavra primitiva,originária,não tenha nada que ver com os modos de frutificação,mas o movimento está lá,intocado,em J            ericó e em Konigsberg.Perceptível.
Se nós usarmos duas outras palavras ou “ conceitos”,como “ basilisco”,animal medieval mitológico,criado pela imaginação, ou Homem,para designar a humanidade(homem e mulher,macho e fêmea),veremos que são criações que não possuem adequação com o real,claramente o primeiro.
Mas no caso, e isto  é muito importante ,daqui por diante,para tratar de Nietzsche e Luckács,do segundo,” Homem”,nós veremos que existe uma “ distorção” do real,por parte da consciência humana-histórica-temporal,que atribui à humanidade um termo que só tem relação com o macho e não com a fêmea,ou seja,expressando valores e significados condicionados por contextos histórico-temporais específicos.No entanto,a percepção sensível,a intuição de que há algo real existe  e esta é a razão da distorção:os valores de atribuição distorcem por motivos  a serem  entendidos,mas que conformam uma realidade,uma realidade social.Mas não se pode dizer que este conceito é independente da realidade,porque ele deriva,apesar de indiretamente,do contato corpóreo do “ homem” com um fato real,mesmo que sensível,como “ humanidade”.É este tipo de atribuição que funda o pensamento de Kant e tem reflexos em Nietzsche,mas este é assunto para um outro texto.
O que eu tenho dito é que um pensador que se empenhasse mais no estudo da filosofia teria entendido esta problemática e esta crítica vale para os filósofos todos ,citados,talvez livrando Platão e Aristóteles,por suas limitações de conhecimento e históricas(que se imbricam afinal).
Mas os outros são como a maioria dos filósofos:na hora da criação ,os modelos escolhidos por eles são a premissa,não verificada,de suas elaborações e ,por vício de origem ,as suas conseqüências erráticas não são (quase)nunca prescrutadas por seus criadores.
Por isso Nietzsche defende uma “ filosofia errática”,baseada na admissão do caráter errante da vida humana,que,por inevitabilidade,ou distorce o real ou não tem como ,por vários motivos,ter certeza de tudo.
Um personagem da literatura,como Policarpo Quaresma,tem elementos do real humano percebido e  de imaginação e atribuição axiológica,revelando ,em ultima análise  que o conhecimento humano é um amálgama de várias mediações do contato subjetivo-objetivo,como estas e outras.
Preocupado com a dialética e suas leis,Hegel,Marx( e Croce)poderiam ter compreendido isto.
E há um erro em Gruppi,resultante desta incompreensão profissional e lógica:Dante e Shakespeare não são a poesia,pois esta está no papel;eles são  poetas,poetizar,poiética( no sentido grego),vários conceitos.O conceito de poesia ,nos seus modos,se relaciona com algo real,cultural.Há abstrações puramente ideais,como basilisco ou “ matéria”(pois quando se diz matéria não se designa nada,mas muitos modos de sua manifestação[assunto para o próximo texto]).E há abstrações que se referem a algo real,mediatizadas pela sensibilidade e pela experiência.

sábado, 21 de abril de 2018

Marx e os anarquistas


Em primeiro lugar a tradição marxista (contre Marx?)fez acreditar que só ela era comunista,mas o anarquismo também é comunista.A espécie humana é derivada dos neandertais e dos cro-magnons .Assim também de duas vertentes “ revolucionárias”   derivam o comunismo moderno.Comunismo que já era proposto desde o século XVIII,sob diversas formas...
Da corrente marxista,acusada de “ autoritária” pelos anarquistas,surgiu o revolucionarismo de Marx e a corrente reformista,da II Internacional ,a qual,modestamente,me filio.
Como tenho explicado, Marx representa a ortodoxia enquanto defende a inevitabilidade e exigência moral da revolução.Embora os próceres da II Internacional Bernstein e Kautsky(o primeiro principalmente)se digam ortodoxos,a sua via reformista é heterodoxa,pela recusa do processo político revolucionário.
A revolução em Marx atende não só às lutas dos operários,que devem,segundo ele,se unir,mas ao conhecimento do funcionamento contraditório do capitalismo,cujas crises servem de motivo para a sua superação,bem como o próprio fato da exploração.
Os anarquistas são revolucionários porque,como os marxistas(Engels ressaltou[e eu já me referi a isto])querem tomar o estado para destruí-lo e edificar a sociedade comunista.Os marxistas querem o mesmo ,mas com métodos diferentes,reconhecendo a complexidade da transição de um regime capitalista para o comunista(Engels).
O modo de fazer a revolução para os anarquistas revelou-se na História,variado,mas há algo que sempre permanece ou retorna:a ação direta.
Nos últimos acontecimentos derivados da “ crise do subprime “ em 2008,os anarquistas ressurgiram ,afirmando aquilo que sempre disseram:a suposta paz do capitalismo é ilusória,é a  “ paz dos cemitérios” e é preciso relembrar esta verdade ,sempre.
Após o fracasso da Comuna de Paris,que não foi anarquista,mas que teve mais representantes seus do que os marxistas(que eram só dois),a tese de tomada do estado não foi propriamente esquecida,mas relegada a um segundo plano,em favor da “ ação direta”,do sistema do “ fato”,isto é,o esforço individual ou de grupo para manter todos ligados na luta contra o capitalismo.
Os anarquistas acusavam Marx e os marxistas de serem autoritários(até hoje).Diz-se que Bakunin profetizou os perigos de um  marxista no poder na Rússia,terra natal dele.Mas temos que entender bem este autoritarismo,para compreender o significado histórico da luta desempenhada até hoje por estes dois movimentos siameses e contraditórios,pois da crítica deles é que pode nascer uma esquerda renovada.
O viés do autoritarismo marxista é intelectual e cientificista:a compreensão total do capitalismo é condição essencial para a classe produtiva construir a utopia.No caso do anarquismo as idéias são bem mais simples e na época em que estas correntes surgiram a compreensão da classe operária quanto ao que devia fazer se dirigia mais fortemente para o anarquismo.Isto prova que a compreensão do que era o comunismo era mais entranhada no anarquismo.
Facilitava o fato de o estado não ser tão complexo como é hoje.Imaginava-se (e era possível)que a maioria de trabalhadores ,organizada ,podia tomar o estado,como na Comuna e realizar o objetivo.O estado era visto(inclusive por Marx)como mero “ comitê de assessoramento” da burguesia.Bastava trocar o seu sinal e torná-lo “ comitê de assessoramento da classe operária”(conceito muito repetido no stalinismo).
A Comuna ,no entanto,estava fadada ao fracasso e nem os anarquistas e os marxistas se referem a este fato,contrariando as sua teses e análises.Bakunin ainda tentou dar-lhe continuidade,mas a realidade o frustrou,bem como aos outros,gerando o método da “ ação direta”,como substitutivo.
No caso do marxismo,muito embora nas “ Lutas de classe em França” Marx não tenha reconhecido a inviabilidade da Comuna,ficou evidenciado que sem uma revolução universal,que a tivesse tirado do isolamento,um governo operário de trabalhadores não seria factível.
E como em 1848,em que as dissensões entre França e Alemanha fizeram a revolução gorar,em 1871 o mesmo se deu.Razão porque o marxismo da segunda internacional se deslocou para este país unificado e construiu o período áureo ,no dizer de Kolakowski,do marxismo.
Com a amplificação do estado,na sua relação com a sociedade civil,os mecanismos revolucionários e de ação direta decaíram,mas,de certo modo,a perspectiva do marxismo,simplista em 1871,quanto à caracterização do estado,pode crescer com outras teorias explicativas,segundo as mudanças ocorridas.
O problema é que a ação direta, as idéias do anarquismo, são mais eficientes para manter a “ questão social” em voga.Eu estou analisando tudo isto no blog Temas e os remeto para lá,para acompanhar as minhas análises.Por aqui é preciso que fique claro que a absorção pelas massas do marxismo é mais difícil,porque,por várias razões,as idéias são mais difíceis de assimilar.
Esta história de que o operário entende facilmente “ O Capital”,é uma tentativa mística dos comunistas marxistas de não encarar esta verdade.Após a morte de Marx ,o editor inglês da tradução de “ O Capital” aconselhou que ele fosse publicado em fascículos,para melhor entendimento da classe operária inglesa,a mais organizada até então.
E depois,com as diversas teorias atualizadoras e acrescentadoras,o panorama piora:inúmeras discussões,inúmeras divisões segundo as teorias, parecem condicionar a prática à adesão a cada uma delas,o que entrava mais ainda a luta.
Por isto os nazistas quando queimaram os livros,vaticinaram o fim  do “ intelectualismo judeu-bolchevique”(marxista [digo eu]) em favor das verdades do povo.Com isso eles construíram uma demagogia sobre uma base nem sempre pantanosa,porque acusaram o marxismo de criar discussões em face da sua incapacidade de entender a realidade.”Mas o povo sabe do que precisa”.
O marxismo,tem razão em dizer a direita,é um seguidor(contre lui?)do rei-filósofo de Platão,porque ele quer dirigir a luta,segundo idéias científicas e teorias complexas,o que é senão difícil,quase impossível.
No mundo de hoje e inclusive no Brasil,o anarquismo é atuante no sentido de combater a “ paz dos cemitérios” e errado ou certo mantém a chama da questão social viva,como outrora.Porque foi o anarquismo que a consolidou.Após a revolução de outubro criou-se a idéia de que a “ questão social” foi criação do marxismo,o que não é verdade.
Aliás existe uma participação do anarquismo em vários eventos do século XX,mas isto é tema para outro artigo.

sexta-feira, 13 de abril de 2018

Alceu Amoroso Lima ,Marx e Lênin


Também numa famosa entrevista dada ao Pasquim ,pouco antes de morrer,em 1982(a morte foi em 83),Alceu Amoroso Lima fez observações sobre o significado histórico do marxismo ,na sua passagem de Marx a Lênin.
Ele repetia um mote da direita(de então):” Marx elaborou as idéias,mas Lênin as transformou num meio de ação”.
Não é bem isto:Marx sempre se preocupou com um “ meio de ação” ao construir a internacional.A análise da direita falha neste sentido,talvez por desconhecimento ou interesse de torcer as coisas.
Estudar o marxismo não é ,de modo algum ,estudar todas as suas correntes,como um idiota do youtube diz.O fio condutor de uma teoria é a sua aplicação na prática.A revolução russa foi a comprovação da teoria de Marx?
Conforme eu tenho dito aqui,no meu ponto de vista,a sua aceitação por parte de Marx seria,no mínimo,uma contradição com os seus textos.
A discussão com os narodniks russos,através de cartas coligidas por Michel Lowy em seu livro “ As lutas de Classe na Rússia”,não prova de forma alguma a adesão de Marx e Engels a um suposto “ projeto russo”,que começou com a atividade de Lênin,junto com Plekhanov,em 1890(redação da Iskra[Centelha]).
Era um consenso na Europa Ocidental,que amargava uma etapa de desolação do movimento operário diante da hegemonia total da burguesia,que haveria uma revolução na Rússia,mas os debates prosseguiram entre aqueles que pensavam estar o país preparado para a revolução(Lênin) ou não(Plekhanov).
Os descaminhos da Revolução Russa,como teste das teses marxistas é o fio condutor principal das discussões sobre o marxismo.
O segundo fio é a discussão sobre economia política e o terceiro é a sobrevivência do materialismo na forma marxista e a sua ,ainda,aplicabilidade,em diversos setores da realidade e do saber.
O fato de Lênin ter feito um partido não quer dizer nada diante do problema mais importante que é o da viabilidade da Revolução e do desenvolvimento do socialismo após a morte de Marx.
Esta é a base para as discussões sobre a sobrevivência eventual futura do movimento e sobre a sua posição no âmbito das outras correntes sociais que se reúnem e se reuniram em torno da “ questão social”.
Para mim e para a maior parte dos que ainda se aferram ao marxismo,esta questão é mais importante do que a fidelidade à Marx.O materialismo histórico reconstruído o é.

domingo, 1 de abril de 2018

Mais fundamentos para o diletantismo filosófico de Marx


O historiador da filosofia Needelham afirmava que a partir de qualquer autor era possível formar uma filosofia,um pensamento,uma idéia e é verdade.Se olharmos a história da filosofia,grandes idéias,movimentos,foram tirados de determinado grupo pequeno de autores,principalmente Platão e Aristóteles,os quais foram ( e são?)o modelo do Ocidente.Inclusive do cristianismo.
Mas se observarmos bem a formação dos filósofos,posteriormente a estes citados,sempre dava conta de um certo “ trivium”,ou seja,um grupo básico de saberes essenciais,sem os quais era impossível se formar como filósofo,pelo menos na acepção datada desta palavra.
Marx acompanhou aulas de filosofia de Eduardo Gans na Universidade,fazendo uma baldeação entre o curso de direito(conforme desejo do pai)e o de filosofia,notadamente os intérpretes,comentadores e continuadores da filosofia hegeliana,que era tida ,naquele tempo,como  descobridora do “ movimento” do pensamento,da physis,e da sociedade.
O percurso marxiano,quer dizer do jovem Marx até aos jovens hegelianos(porque não considerá-lo um deles?),que é a segunda geração dos intérpretes e comentadores,é este,moldado pelos interesses pessoais,não pela necessidade ou exigência de formação,até porque a organização universitária daquele período não era tão rígida como a de hoje.
Neste sentido Marx não teve o básico de uma formação de expositor (professor)de filosofia,muito embora,como se vê na “ Ideologia  Alemã” tenha citado muitos autores,inclusive Kant.Pròximamente eu farei um estudo destas citações.
Isto confirma o pressuposto inicial de que é possível construir um pensamento novo com uma base específica.Marx queria o “ movimento real das coisas”.Discutir a religião não era mais importante do que o movimento real das coisas,que era o movimento social,identificado por ele como o dos trabalhadores e operários ,que desde o século XVIII vinham propondo idéias utópicas para substituir o  capitalismo(neste aspecto Marx é um dos precursores da sociologia).E esta rejeição se deu pela leitura de Feuerbach,o qual desenvolveu  uma idéia contida já no Pré-socrático Xenófanes de Colofão,segundo a qual os deuses são projeção ,no céu,dos desejos humanos,no que se pode considerar o inicio provável do ateísmo.
Não ocorreu a este filósofo,bem como a Marx,que o discurso religioso,como Hegel chamava a “ religião popular” e a “ religião racional”(dos doutos),tivesse autonomia e legitimidade.O simples fato de ser mera projeção (falsa)do homem,sobre a natureza,sobre o mundo,o conduziu à sua total rejeição.
Jurgen Habermas,no livro “ O discurso filosófico da modernidade”,demonstra que foi possível a Hegel ( e eu digo a Marx),elaborar uma “ razão comunicativa”,com a autonomia das idéias,em 1806,em relação ao primeiro , e eu digo que ,de 1844 a 1848,com relação a Marx,que este poderia se adiantar a Gramsci,quem sabe.
O “ respiro da criatura oprimida’,” o coração de um mundo sem coração” não se apresentaram a Marx como mediações abertas ao discurso revolucionário,que se limitou ao desforço político e às armas(e ao conhecimento da economia).As armas da crítica(Kant)foram suplantadas pelas armas,que dispunham não de um discurso justificador(ideológico),mas da verdade científica.
No livro citado Habermas explica que trabalhando com os conceitos acima citados de “ religião” e com a  literatura popular da Alemanha,mais precisamente com o esforço de Schlegel de recuperar a arte medieval ,Hegel ,se aprofundando,teria chegado a esta “ autonomia das idéias”,tão imprescindível à razão comunicativa,como a outros discursos subjetivos legítimos futuros(inclusive a psicanálise),se não se aferrasse às “ leis da dialética”.Mas esta questão eu vou analisar no artigo seguinte.
O que eu quero dizer é que faltou este aprofundamento possível no caso de Marx também,que não tendo um “ trivium” de filosofia não se convenceu da autenticidade da “ autonomia” e da mediação das idéias.
Mas o caminho aberto e não trilhado é claro,era possível,tanto para Marx quanto para Hegel.A narrativa bíblica é cheia de fatos fantásticos,não condizentes com o real.É demais esperar que ambos tivessem uma antecipação quiçá psicanalítica de um basilisco,uma simbólica ou semiótica,mas é difícil crer que leitores de Shakespeare,de Hamlet, não notassem as evidentes implicações políticas(pelo menos[não psicanalíticas])do fantasma do pai de Hamlet aparecendo no castelo.
O papel de Mefistófeles nas obras de Goethe não tinham este poder,porque o diabo ,no primeiro Fausto é a contraposição do bem ,a tentação,purgada pelo amor de Margarida;e no segundo ele é a força ativa do trabalho,o inicio da “ antropologia do trabalho”,desenvolvida por Marx,a vida toda.O diabo ,que quer destronar Deus, não oferece  condições para uma elaboração da subjetividade,mas a arte em geral sim.
É curioso como esta visão científica/cientificista de Marx(determinista)perdurou na dicotomia superestrtura/infraestrutura,que serviu a Engels para fazer a análise célebre  das “ Eumênides” de Ésquilo(que em próximo artigo analisarei também).Para ele,numa antecipação da reflexologia( e continuando com a oposição de Marx ciência e ideologia),a mudança no comportamento dos deuses é em decorrência das transformações sociais,não possuindo as decisões destes deuses valor(axiologia)autônomo ou significados perquiríveis científicamente pela sociedade.
Mas nas obras de Shakespeare ,Hamlet,Macbeth,Rei Lear,existem questões subjetivas a desenvolver.Bem como na Bíblia.
A capacidade de José de interpretar os sonhos opera mudanças na atividade política dos faraós bíblicos,na relação com os hebreus,assim como a legitimidade do poder em Hamlet e Macbeth é posta pelos fantasmas,sem,óbvio,existência real(como é da definição de fantasma...).
Ao questionar o poder de Deus-Pai,que cria o seu filho unigênito,dentro da dialética,David Friederich Strauss,renova o ateísmo,mostrando que Deus se limita e passa a se definir pelo filho,sem o qual ele não mais existe.Como não fazer uma conexão coma Revolução  Francesa,que decapitou um Rei, o pai da nação(como os reis eram[Marx era leitor da Revolução Francesa])?Strauss era jovem hegeliano e Marx bateu de frente com ele.Como não perceber que houve a ,partir das idéias ,uma mudança de comportamento político com o cristianismo e uma nova interpretação da Biblia?
O cientificismo dialético determinista de Marx (e o de Hegel)o impediu de notar estas possibilidades.
Ao ler certamente a doutrina transcendental  dos elementos,Marx seguiu o pensamento de Kant,de que havia um a priori(idealista)capaz de organizar o mundo e a experiência segundo um modelo prévio.Mas nem ele e nem Kant viram as inúmeras chances de constituir um logos autônomo(referenciado a si mesmo),na estética transcendental,em que os juízos sintéticos são elaborados.Ao dizer “ todos os corpos são leves” ou todos os corpos são pesados”,era admissível dizer “ o basilisco existe”,se fosse relacionado com o comportamento humano o qual muda instâncias definidas da sociedade.Como os sonhos do Faraó,os personagens de Shakespeare(ou Balzac ,que Marx tanto gostava).Mais ainda, numa época em que  autonomia do individuo era ampliada,com o protestantismo ,que admitia várias leituras da Biblia,porque não municiar os operários desta capacidade?Porque confiná-los na ciência e no determinismo?Esta oportunidade parece perigosa à concepção de Marx e Engels,ou dependente do advento do comunismo.
Hegel ,na oposição  dialética(portanto legítima em ambos os termos)entre verdade e falso,tinha esta condição,mas cortou-a ao meio com as “ leis da dialética”, o “ logos dialético”.
A autonomia se dá plenamente quando a subjetividade compreende a linha de ligação entre a imaginação(sonhos)e os significados ocultos nela própria.Isto é ,José é decifrado por Freud.Aí juízo sintético imaginativo “ o basilisco existe e é vermelho”,ganha um significado.
E o progressivo incremento da axiologia revela que por trás das narrativas não científicas há valores,que a política(e a economia)devem reconhecer,como saberes sociais que são.
Será que faltou um conhecimento mais profissional a Marx,um conhecimento ,ao menos ,da História da Filosofia?Kant o tinha e não chegou lá.To be continued.