sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

O materialismo dialético nunca existiu



No primeiro volume de “ A Ponte” eu me referi,citando Popper,que a dialética objetiva não existia e mostrei lá as razões.Engels ,ao se preparar para escrever a “Dialética da Natureza”,em alguns de seus cadernos,falava na “ trama das categorias”,ou seja, da relação entre as categorias,que são geralmente relacionadas  a partir de antinomias ou dicotomias,como forma e substância(que vêm de Aristóteles),forma e conteúdo(uma adaptação materialista moderna[porque a substância é algo intangível]);aparência e essência(uma outra adaptação de Aristóteles),quantidade e qualidade(derivada da físico-química).
Estas “ categorias” estariam interligadas,inclusive no “ Capital”.
Eu até há pouco tempo achava que no plano da biologia ainda era possível falar em “ Aufhebung”,assimilação/superação,mas já não acreditava(a palavra é esta) na trama das categorias,como já demonstrei usando o exemplo clássico de Engels da vaquinha e da flor.Hoje nem a aufhebung na natureza se sustenta.
Observemos o lindo quadro de Almeida Júnior “ A Fuga para o Egito”

Dentro do esquema dialético a tese poderia ser:Tese: São José, a antítese Nossa Senhora e a síntese o menino Jesus.Poderia ser o contrário,começando de Nossa Senhora.Mas ,comparativamente,um casal estéril não seria capaz de produzir a síntese,então  a aufhebung objetiva,natural,fenece,como critério “ absoluto” natural.
Sartre ,seguindo Kant,é quem tinha razão:a dialética é um produto da consciência.Na esterilidade a adoção provê a síntese como decisão consciente e voluntária do casal,que consegue se completar por uma decisão “ espiritual”,espiritual não no sentido religioso mas no de “ lebenswelt”,mundo da reprodução simbólica” ou mais precisamente “ mundo da vida” no dizer de Husserl.A vida é movimento de afirmação,de decisões assertivas que lhe dêem continuidade e bem-estar.Não prazer,bem-estar,glorificação ou afirmação permanente do seu sentido afirmativo.
A dialética,como demonstrada na “Ciência da Lógica”,matriz do manualzinho stalinista “ Manual de Materialismo Dialético”,é pura ficção, arbitrária até.
Hegel mesmo,conforme Leandro Konder cita em seu livro sobre a “ Dialética”,sentia verdadeiro pânico dela,porque não sabia como harmonizar as “ leis da dialética” com o “ movimento dialético em si mesmo”.
Em artigo próximo eu falarei sobre como ele poderia ter deslindado este nó,analisando um dos capítulos de “ O Discurso Filosófico da modernidade”  de Habermas.
O manual stalinista aliás tem muito mais a ver com São Tomás de Aquino do que com Hegel,embora a metafísica toda o tenha(incluindo Marx[Benedetto Croce diz que Marx é metafísico]),como sistema fechado,lógico e identificado com a natureza.E a natureza servindo de modelo social(outro tema para os próximos artigos).
Em meu pensar Marx teve várias oportunidades para construir algo além da “lógica dialética”,mas foi induzido a erro principalmente na leitura superficial que fez da “ Filosofia do Direito de Hegel”,aplicação pura e simples da dialética.
Na sua famosa inversão da dialética idealista para a materialista,Marx continuou com os mesmos problemas da dialética hegeliana,acreditando(a palavra é esta)que se Hegel partia da idéia da dialética para aplicá-la à realidade natural e social(inter-relacionados)o que se devia fazer é identificá-la como o movimento próprio das coisas.
Como Leandro Konder gostava sempre de frisar,em vez de tratar das “coisas da lógica” Marx intentou cuidar da “ lógica das coisas”,mas persistiu, sem o saber, no erro.É conhecida a afirmação de pé de página de Marx na sua “ Crítica à Filosofia do Direito” sobre se “ Hegel não terá farejado alguma coisa do materialismo histórico” nesta obra.
O sistema jurídico estatal de Hegel,baseado no sistema de carecimento da sociedade civil burguesa,a primeira totalmente interligada ,parece ser um modelo perfeito e fechado de dialética,objetiva,mas a sociedade não é modelada,como puro reflexo,pela natureza,tendo os seus critérios autônomos.
O fato ,como diz Marx nos “ Manuscritos de 1844”,de a condição de reprodução da sociedade ser a reprodução sexuada não a torna o modelo dialético da sociedade,porque,como vimos, a lei da aufhebung não é absoluta.
Da mesma forma que ela ,a sociedade, só surge pela reprodução biológica,esta não é um modelo absoluto de comportamento social legítimo,porque a esterilidade,como outras impossibilidades de reprodução ,mas eventualmente presentes na natureza,é suprível por decisões espirituais autônomas e transcendentes,tão autênticas como as que supostamente a natureza “ prescreve”(se prescreve”).
Nestes erros de Marx e Engels estão os fundamentos de alguns moralismos cientificistas e stalinistas do nosso tempo.Estão alguns fundamentos de comportamento desviante a ser reprimido.
É como dizia Carlos Haroldo Porto-Carrero:” A metafísica é enxotada pela porta,mas volta pela janela”.

sábado, 9 de dezembro de 2017

“Moral Crítica e Crítica moralizante”



Um dos conceitos mais importantes do jovem Marx está inserido no livro A Sagrada Família”” Crítica da Crítica Crítica e é este que está no título:substituir uma critica moralizante por uma moral crítica.
Aqui é um dos caminhos pelos quais Marx poderia ter se conectado melhor com o século XX e reconhecido mais a influência de Kant sobre ele,porque os critérios desta crítica são postos pela filosofia do alemão.Infelizmente ,com o tempo,Marx localizou a solução dos problemas humanos somente nas condições materiais de existência(Ideologia Alemã) e deixou de lado os valores, a  axiologia.
Mas nós podemos (re-)começar daqui um materialismo histórico diferente.Em primeiro lugar ,como nos ensina o marxista Adolfo Sanchez Vasquez existem a Ética e a Moral.A ética corresponde ao ethos,ao comportamento individual,às escolhas individuais e a moral se refere aos valores escolhidos e seguidos em conjunto pela sociedade ou pelos grupos que a compõem.
Assim sendo ao dizer Marx moral crítica está se referindo ao individuo concreto vivo(Ideologia Alemã[outra vez]{parte dedicada a Feuerbach})que considera os valores morais como submissíveis  à crítica(Nossa época é aquela em que tudo pode e  deve ser submetido à crítica[Crítica da Razão Pura{Kant}]).
Todo moralismo é uma ilusão abstrata ,vazia,que busca submeter a realidade social complexa a um modelo,cuja base é o poder.Nisto Marx tem semelhança com Freud(cuja concepção de moralismo aplicada à vida sexual tem um significado repressivo próprio do poder).A regra moral tende a cobrir a sociedade,mas não faz,porque isto é impossível de obter.
Então quando Marx fala sobre uma moral crítica propõe como critério democrático definitivo, anti-repressivo,uma criteriologia permanente deste modelo,que provém comumente da religião,mas passa para o poder de estado.
Também, infelizmente, ele não viu que a busca da superação da exploração fundou um outro modelo,pois que colocou como prioridade a satisfação das carências materiais,sem incluir as espirituais,que não são suspensas pelo processo de luta e realização(revolução),antes correm pari-passu.
De outro lado é preciso reconhecer ,contra Marx e Freud,que,dentro de um critério democrático,existem valores morais que,ainda que não absolutos(o absoluto não existe),são invariáveis(para lembrar uma conceituação de Miguel Reale pai):quero dizer,há uma exigência   de reconhecer que nesta criteriologia ética permanente a idéia de moral impõe uma barreira,qual seja a não predominância obrigatória do desejo individual sobre as reais carências e direitos coletivos.
Na afirmação de Marx se contém um perigo de diluir a moral e é por isto que muitos associam-no a Machiavel,claramente ético,mas não moral( os fins justificam os meios).Se de um lado não há modelo,de outro não há como não ter moral,no sentido de uma escolha axiológica coletiva invariante.
Exemplifiquemos:para superar a exploração não há que defender a supressão da religião ,em seus valores.O fato de Marx,em seus manuscritos econômico-filosóficos de 1844,ter dito a obviedade o sexo é o meio de reprodução da sociedade,não fica autorizada a supressão do celibato e a obrigatoriedade conseqüente do sexo.Marx nunca disse isto,mas seus seguidores construíram uma moral oposta à da religião,em certo sentido,mais repressiva ainda(ou igual),na medida em que o celibato seria uma negação da sociedade.
Este conceito,supostamente defendido por ateus renitentes não é mais do que a repetição ,moral,dos critérios religiosos.Quer dizer, é a permanência, na cabeça de ateus,como Marx talvez,da religião e do tomismo,que seguindo o crescei e multiplicai-voscriou o dogma obrigatório da procriação,apontando a sua divergência como origem de todo comportamento desviante.
A moral críticaé a causa do descaso marxista quanto à necessidade(conservadora)de regras,limites,inclusive jurídicos,que ficam em segundo plano diante da revolução.
Marx fizera uma famosa crítica à filosofia do direito de Hegel,mas com o tempo foi compreendendo menos a juridicidade.Tanto ele quanto Engels sempre associaram o Direito ao nascimento do Estado(Origem da Família,da Propriedade Privada e do Estado[Engels]),esquecendo(por falta de estudo)que a norma está por trás do direito e que ela precede ao Estado e permanece como necessidade social não só derivada dele,mas fundamentalmente da sociedade.
A distinção entre civil Law e common Law era desconhecida por Marx e Engels ,o que os fez não reconhecer o papel do direito,mesmo nas revoluções.
Quando eclodiu a Revolução Russa,a primeira atitude foi deixar as coisas seguirem o seu curso(natural),mas diante da bagunça que sobreveio,os comunistas foram obrigados a organizar a nova sociedade segundo um direito(novo?).E este direito está na base dos processos de Moscou(repressão stalinista).
A moral crítica,pois,parece algo extremamente progressista,mas contém  em sua formulação contradições perigosas que ,depois se revelaram.

sábado, 18 de novembro de 2017

Simbiose entre comportamento liberal e radical



No Capital ,um dos elementos principais da chamada “ acumulação primitiva” é a rotatividade da força–de-trabalho.Marx explica lá que quando os trabalhadores de uma fábrica adquirem organização,e,por isso,força,são mandados embora e contratados outros,do chamado exército industrial de reserva.
Nos tempos atuais,tanto os liberais como os radicais,por motivos diferentes,apostam numa visão abstrata do trabalhador(Robinson Crusoé).
Os liberais criticavam o marxismo afirmando que aquele que é “competente se estabelece”,não havendo motivo para se dar crédito a esta rotatividade.Quer dizer ,a pessoa é mandada embora necessariamente porque de algum modo é ruim ou o merece.
O liberalismo clássico caminhava e ainda caminha por estrada maldita,mas porque os radicais de esquerda,comunistas,marxistas ,vendem também esta idéia?
Os sindicatos foram criados para evitar esta rotatividade e esta é a sua função precípua.Então porque não lutam mais?
Porque a esquerda “moderna”(mais recente)é filha dos processos termidorianos da URSS e no caso do Brasil esta vinculação é mais patente por causa do desconhecimento real dos textos por parte dos militantes.
O impulso revolucionário de mudança só acaba quando as mudanças são realizadas e não quando se toma  o Estado.
A inevitabilidade do Estado na URSS( contra o pensamento de Marx e Engels)criou uma ideologia “ nova”(luckacsiana)da desalienação que ele,Estado,poderia promover representando integralmente o mundo do trabalho.Se o Estado é para o trabalhador e se suas necessidades e condições materiais são “ sempre” ouvidas e satisfeitas,o mesmo encontra a sua realização.
Marx ,Engels e Trotsky sempre afirmaram que o Estado,não podendo representar de fato a  todos,como dizia Stalin, na Constituição de 1937 ,” o estado de todo o povo”,sempre seria de classe e Engels ,reiterava que o que devia sobrar dele era a sua função meramente administrativa.
Com esta ideologia soviética,muitos militantes,no Brasil,entenderam que a sua presença no Estado brasileiro/burguês,para mudá-lo, dava continuidade a esta ideologia e supostamente ao marxismo dos fundadores.
E eu já expliquei ,muito tempo atrás que ,no processo de abertura,desencadeado pelos militares,a criação dos mestrados e doutorados públicos no país,atenderam a um propósito de cooptação daqueles exilados que voltavam.
Premidos estes pelas necessidades pessoais,aceitariam  entrar nesta pós-graduação,inspirada nos Estados Unidos,em que o saber erudito é substituído pela especialização típica do scholar.Estas “condições objetivas” selaram o descompromisso dos militantes com a mudança.
Neste processo ,a diluição do intelectual humanista e erudito, ajudou na formação desta mentalidade liberal ,segundo a qual a pessoa que atinge um determinado patamar é legitima,quando nós sabemos que num estado capitalista /burguês,dominado por interesses,e num país com um tradição histórica de sua manipulação e privatização,isto freqüentemente não é verdade.
Então o radical de esquerda perde esta capacidade crítica,para junto com o liberal,entender a atividade de trabalho sob o regime de classes como uma competição profissional legítima ,isenta de influência política e social.