quarta-feira, 13 de outubro de 2021

Porque a URSS caiu?

 

Assim que assisti a uma entrevista,na internet,do presidente Joaquim Alberto Chissano,que substituiu Samora Machel,em Moçambique,fiquei bastante motivado a escrever este artigo que muito tem a ver com as preocupações dos meus textos.

Lá ,nesta entrevista,perguntado pelo jornalista sobre a eventual culpa atribuida por muitos historiadores ao processo de libertação de Angola e Moçambique, pela queda da URSS(e do socialismo real),ele negou,afirmando o que muita gente afirma:a URSS não sobreviveu porque ela se alçou sobre a sua base material sem poder expandi-la.Citando Marx ,Chissano diz que esta é a condição de sustentação do regime socialista.

Eu não vou discutir neste artigo as concepções de Marx sobre socialismo,coisa que eu tenho feito em outros textos e eu os reporto para eles.Mas num aspecto a citação de Chissano faz sentido:a base material ampla é a condição objetiva do socialismo e do comunismo.Eu acrescento condições subjetivas também ,mas não é o caso aqui de se tratar.

Jornalistas e historiadores se desdobram em mostrar que a sustentação do leste europeu,da libertação africana e de outras frentes de libertação(como na Ásia,no Vietnam[que não foi tanta assim])causou a queda da URSS e do socialismo real.

Um jornalista português,José Milhazes, publicou um livro intitulado :” Angola,começo do fim da URSS” e nele expõe uma série de estatísticas comprobatórias.

Cada um destes pesquisadores tem razão em atribuir responsabilidade ao sistema que a URSS sustentava.Joaquin Chissano completa a sua análise do fim do socialismo real com a seguinte assertiva:” a URSS foi destruida de fora(diria eu,pelo capitalismo)”.Mas eu acrescento:de fora sim,mas porque de dentro também.Explico.O sistema socialista,a fase prolongada e extendida do socialismo(contra o pensamento de Marx),não tinha como prosperar desde o inicio,desde Lênin.

A URSS não tinha como trazer para si os recursos dos outros países,mesmo Angola e Moçambique ,para ampliar a sua base material e ora esta,dentro do pressuposto do internacionalismo não tinha sentido construir o comunismo soviético(se era possível dadas as circunstâncias)em detrimento de outros países.

Quando Moçambique se liberou é sabido que progressivamente Samora Machel se distanciou da URSS,que não tinha mais condições de ajudar.Mas não por causa só da África, por causa de tudo . De todo o apoio que ofereceu.

É claro que historica e politicamente isto é um ponto a favor da URSS e do socialismo,que ajudaram a destruir o neo-colonialismo e a libertar povos oprimidos,mas ,entre outros fatos, contribuiu para o fim do socialismo.

O ponto histórico nodal ,como eu venho explicando anos a fio,é a ascensão de Kruschev ao poder na URSS,em 1956.Kruschev não teve alternativa senão fazer o degelo e comerciar com os Estados Unidos ,porque o povo soviético não aguentaria mais repressão regada a falta de recursos,incluindo alimentos.Houve racionamento na URSS desde 1917 até Kruschev.

Foi neste momento que apareceu o terceiro mundismo.O terceiromundismo veio daí e da atividade politica do Marechal Tito,que sabendo destes problemas teóricos do socialismo,procurou se separar da URSS,causando fúria em Stalin.Apareceu também o eurcomunismo.

Estas tendências responderam à necessidade prática de Kruschev de legitimar o governo comunista.Stalin não aceitava de forma alguma que houvesse uma revolução mundial sem a liderança da URSS,porque se ela saísse do isolamento o poder dele desaparecia,porque o stalinismo já não é comunismo,stalinismo é stalinismo ,uma modalidade de chauvinismo grão-russo ou nacional-socialismo.Algo que não se identifica com o czarismo,mas que se apóia nas suas práticas.

Com a coexistência pacifica Kruschev deixou aos outros partidos comunistas a tarefa de espraiar o comunismo,inclusive pelos parlamentos,negando em parte as colocações de Lênin na “Doença Infantil”.

Mas a direita também fez a sua leitura de tudo isto.Um dos dissidentes mais importantes destes anos foi Serge Amalrik,que em seu “1984:resistirá a URSS até la?” resumiu o pensamento da direita de 1956 em diante:a URSS foi se tornando progressivamente mais e mais dependente dos Estados Unidos e isto só poderia ser evitado se o isolamento da URSS fosse superado,pela vitória do terceiro-mundismo e do eurocomunismo.Então a direita combateu os comunistas na Europa,no terceiro mundo e pressionou de diversas formas,inclusive econômicas,a URSS.

Até a invasão da Tchecoeslováquia foi este o panorama.Depois de 68,a esquerda sem chegar ao poder e o terceiro-mundismo seguindo caminhos próprios,mudou tudo para o que se convencionou chamar de detente ,uma contenção de ambos os lados.A detente acabou com a invasão do Afeganistão,provocada pelo ocidente e os Estados Unidos.Mas esta provocação estava dentro do desenho estratégico que vinha de 56,pondo a detente no seu devido lugar de mero interregno.

O que fez o ocidente foi empurrar a URSS para o abismo e certamente as despesas que ela teve com o campo socialista ajudaram nesta queda,mas não foi por causa disto,foi porque os fundamentos do socialismo real estavam errados,inclusive ao arrepio dos textos e da teoria.

Os remanescentes defensores do socialismo real e de sua volta(URSAL)não vêem esta realidade.O socialismo não tem Meca,ele é policêntrico e não prescinde,dentro de seu internacionalismo ,do primeiro mundo,desta balança EUA/URSS.

A leitura que fiz dos arquivos da III Internacional provam que o comintern desejava uma revolução nos Estados Unidos para viabilizar a revolução internacional e é este o ponto central que se coloca hoje,para impedir que o fracasso do passado se repita.

O modo como a China age hoje só é explicável pelo que ela aprendeu com estes erros do passado:a competição simétrica da URSS com o ocidente ,ajudando estes países todos,acabou por levá-la ao fim,ao empurrão.Os chineses travam uma competição assimétrica,buscando outros setores para empurrar o ocidente e os Estados Unidos.O modo como a China age garantiu até agora esta capacidade de enfrentamento,mas eu vaticino que,como a URSS,a China é um gigante de pés de barro.

Assim como a URSS parecia uma estrutura de Oscar Niemeyer sustentada por colunas de madeira a China padece de um problema irresolúvel no plano do socialismo real:quando um país socialista se abre para o capitalismo ele corre o risco de criar inevitavelmente uma burguesia e uma classe média.

Quando possuia a idade de 19 anos Deng Xiao Ping foi mandado para estudar com Trostsky na URSS.Trotsky identificou este problema criticando a NEP de Lênin,que,no fundo é o programa antecessor de todos estes sistemas de socialismo real com aberturas para o capitalismo.

A classe burguesa ,incrustrada no socialismo ,se adapta em qualquer lugar ,em qualquer regime.O socialismo chinês é capitalista para o exterior ,onde esta classe de abonados chineses,consome e municia a China de recursos.

Dentro do país o controle socialista tradicional continua,mas quando ,na década de 80 do século passado ,se permitiu a formação de uma pequena classe média de produtores,esta classe protagonizou os protestos reprimidos violentamente na Praça da Paz Celestial.

Toda classe média é nacional e por isso autóctone.Ela consome no país e é responsável pelo seu crescimento e manutenção do equilibrio econômico e politico,junto com a classe operária.Mas além do consumo e por causa dele a classe média exige liberdades públicas,pois ela não vai comprar um televisor de último tipo para ver só os lideres do partido comunista .Não vai comprar um notebook top de linha para não poder acessar a internet ou não ter como montar um negócio.

Para mim é inevitável que uma classe média assim apareça.Na verdade ainda que ela não esteja aí,as condições econômicas ,sociais e objetivas o estão e pressionam.O que a China faz é dar capacidade de consumo de classe média a amplos setores da população(Dilma copiou aqui) e isto já é uma pressão.

O dia em que esta pressão for insuportável,com as condições obejtivas extrapolando,não haverá partido comunista que aguente.Quer dizer a China,em última instância,passa pelos mesmos problemas que a URSS,apesar de tudo,apesar de sua propalada previsibilidade:o seu afã obsessivo de acumular(acumulação socialista)vai contribuir também para isto,porque ou a China investe em seu mercado interno,precisando de uma classe média consumidora ou terá que de alguma forma vender no exterior,como já faz.Contudo esta lógica acabará por deslegitimar o poder do estado,porque os chineses exigirão consumir.E isto sem falar da incapacidade da China em tirar os 200 milhões de abaixo da linha de pobreza.

Esta infantilidade de alguns radicais que acusam o capitalismo de ser o culpado do fim do socialismo real é uma bobagem muito grande,porque óbvia.Tem criança que acha que por causa da ciência e da moral o capitalismo deveria aceitar o socialismo.Só infantilidade ,mas que muita gente vai extrair da fala de Chissano:se o socialismo fosse forte não adiantaria empurrá-lo.


domingo, 12 de setembro de 2021

Marxismo, “Filosofia” de nosso tempo

 


Marx e Sartre

Foi Sartre que apontou o marxismo como a “ filosofia” do nosso tempo,mas se ele observasse com cuidado veria que Marx não é propriamente um filósofo.Eu já provei isto aí.Ele é um pensador que trata de muitas coisas inter-relacionadas pela dialética.Tirando a dialética não tem nada ou antes disciplinas mais ou menos conectadas.

Contudo pela preocupação com a transformação,com a mudança,inerentes à admissão do movimento,como parte do saber, a questão da superação de determinados fundamentos do tempo ,conforme Hegel tinha proposto sobre nossa época,passou a ser essencial.A essência se movimenta ,quer dizer, se recoloca permanentemente e aquilo que era, já não é mais.Todo o tempo,toda a época tem os seus fundamentos ,as suas carcaterísticas,que se modificam e formam outro tempo.

Sartre ao afirmar que o marxismo era a filosofia do nosso tempo o condicionava às questões de nosso tempo.Superando este tempo,as questões e problemas do tempo são superadas.

E aí há ou não necessidade do marxismo?O marxismo se vai se os problemas denunciados por ele se vão também?

Esta afirmação sartreana é parcialmente verdade,porque os impasses de nossa época foram abordados por Marx e o marxismo,mas não só por ele.

Ao falar deste modo Sartre aceita a auto-arrogada proposição(pretensão)de Marx e do marxismo de ser o pensamento capaz de abordar o tempo in totum .

Para Marx a sua abordagem era a única científica e por isso única capaz de superar conscientemente aquilo que estava destinado a desaparecer.

O marxismo explicou porque ele tinha esta condição.Se esta premissa proposta está certa,então superado o tempo velho Marx e o marxismo vão com ele.Não porque ele fizesse parte do passado,mas porque o compreendeu bem,acertadamente.Mas analisando aquilo que ele considera passado é passado também ,porque está nele.

De qualquer forma,como fautor do futuro,ele é parte dele,por ter notado no passado e no presente o passo seguinte.Ainda assim,todo o arcabouço explicativo do marxismo desaparece,ficando ele como parte real e prática do futuro,que já não o é somente ,mas presente.

Trotsky,que compreendeu bem o marxismo ,embora não tivesse lido os escritos de juventude o analisara deste jeito num outro aspecto:o sistema socialista criado por Stalin(e por ele Trotsky)não era legitimo porque baseado na hegemonia da classe operária,quando o objetivo era a supressão da sociedade de classes.A vanguarda do operariado,superando a sociedade de classes acaba com a classe operária também e...consigo própria(a vanguarda),num movimento essencial e necessário.

Feito isto o que sobra do marxismo?Há algo que fica do marxismo,que transcenda esta passagem?O que fica do passado e do marxismo?

Proudhon afirmava que ,dentro da concepção da aufhebung,toda a época,todo passado,deixava alguma coisa de positiva no futuro.De certa forma,como explicamos antes,Marx pensava o mesmo,mas vendo no passado o germe do futuro,que o renega totalmente.Proudhon entende que no passado permanecem valores,idéias e tudo o mais,por sua qualidade,por sua legitimidade.

A sociedade escravocrata do passado criou obras de arquitetura,conhecimentos cientificos,que permanecem,apesar do sacrificio de pessoas inocentes.Tenho a impressão de que Marx concordaria aqui com Proudhon e muitos de seus seguidores deveriam saber disto aí...espirito de partido em história é bobagem,é infantilidade.É uma compreensão errada,proveniente da dialética simplificada dos tempos de Stalin,mas que estava ab ovo em Hegel(passando por Engels).

Mas o marxismo só permanece se entender ,se tiver efetivamente algo a ver com o que é transcendente na vida,mas ele é um materialismo,imanente,como todo materialismo. E aí as coisas complicam.


terça-feira, 3 de agosto de 2021

Os comunistas e a eternidade

 

Diante das críticas que tenho feito aqui ao socialismo e ,porque não,ao comunismo,o pessoal ortodoxo vem sempre com aquela ladainha de dizer que eu apóio a eternidade da burguesia e tal.

Vou dar-lhes uma aula de bom-senso.

Quem pode afirmar por a+b que alguma coisa vai ser eterna?Quais os criterios pelos quais se pode afirmar isto?Nós não temos na verdade nenhum critério,mas a experiência da humanidade,a experiência histórica,apresenta alguns fatos e realizações que têm uma longevidade que os habilita a “ exigir” eternidade,continuidade infinita:o homem atual tem dez mil anos e desde então crenças religiosas o acompanham apesar dos percalços.

A religião e as crenças portanto têm um certo direito de eternidade,embora não a certeza.

As nações:algumas nações e até cidades,como Roma,são longevas.Esta última tem “ só” 2500 anos.

Em passado relativamente recente a questão de permanecer muitos anos era essencial para dar a medida da eficácia e da justeza de determinados projetos políticos.Hitler e os nazistas achavam que o seu Reich na Europa demoraria mil anos e talvez durasse de fato se tivessem dominado o centro geopolitico do mundo,que é a Rússia.

Assim também os comunistas achavam que pelo fato de a URSS ter durado mais de 75 anos duraria para sempre.Alguns recuavam a 1848 e,portanto, 150 anos já seria uma prova de longevidade e de justeza da ideia.

Mas dentro deste critério único ,os primeiros exemplos acima têm mais condições de pleitear a eternidade do que estes últimos.

Os critérios ,pelo menos para mim,mudaram,quando ouvi Lester Turow argumentar em “ a sociedade de zoma zero”,que se fosse só este o critério,o de tempo ,a escravidão seria o melhor regime,porque durou 6500 anos ou o feudalismo,que durou 1000!

Ninguém tem meios de afirmar que a burguesia vai durar para sempre,nem ela própria,nem seus defensores e muito menos os seus criticos.

Então esta “ acusação” que se faz à minha pessoa,quanto às minhas críticas ao socialismo,não significam uma defesa da eternidade da burguesia,porque sou sensato.

Eu sei que muita gente,do lado da burguesia ,entende deste modo,sendo mesmo apoiado evidentemente pela religião,mas não é o meu caso.

Eu prefiro uma sociedade sem classes,mas não acho que isto seja obrigatório e nem acho impossivel criar a sociedade justa no ãmbito do capitalismo.Acho que o comunismo não virá pelo que há de pior no capitalismo,mas pelo que há de melhor nele,mas será construído de uma forma totalmente diferente daquela que nós vimos no século XX,a partir de Lênin.

E também pombas!quem pode afirmar que o comunismo dure para sempre?

A partir das reflexões feitas em cima do texto de Lester Turow é aquilo que a humanidade quer,pelo menos na média,é que deve ser tido como o projeto humano.


terça-feira, 6 de julho de 2021

Questões relativas à II Internacional e à social-democracia

 

Lendo as considerações de Leandro Konder em seu livro sobre Walter Benjamin e a inserção deste autor no marxismo social democrático alemão,me senti instado a refletir sobre a social democracia,de seus primórdios aos dias de hoje(e ao futuro?)

A análise de Leandro Konder segue o roteiro criado pela URSS.Nos dias que correm no entanto,há que repensar em face de novas descobertas históricas,novas narrativas mais próximas do real.

A explicação de Konder é sempre no plano filosófico:o determinismo da segunda internacional resulta de uma decisão dos seus próceres.É como se o modelo voluntarista de Lênin fosse o único verdadeiro e devesse ser usado para sempre como referencial de análise.

Claro,o processo revolucionário é uma decisão consciente,uma tomada de consciência e isto está em Marx,mas às vezes a condição objetiva não favorece ao ato voluntário.

Carlos Nelson Coutinho,amigo fraterno de Konder ,afirmou certa feita que no final da vida Marx e principalmente Engels(que viveu mais) perceberam a necessidade de um modo mais processualistico para se chegar à utopia.Na verdade Carlos Nelson se referia à exigência de maior participação do povo junto às vanguardas da revolução,o que denuncia o problema da dicotomia vanguardas/povo.E que denuncia que a revolução é um processo de toda feita,tanto quanto a reforma,mas se manifesta num ato voluntarístico,o qual não existe sem algo que o preceda e sem algo que lhe seja subsequente.

A revolução não é um momento mágico ,mas parte do processo histórico.Foi com a segunda Internacional que a questão da reforma foi posta como problema teórico.Contudo ,como esta primeira geração foi muito influenciada por Marx e pelo impeto revolucionário a ideia de um comunismo a ser obtido automáticamente cresceu.

Mas não foi isto (só) não.Como explica Hobsbawn em “ A Era do Capital”,a burguesia venceu a batalha ideológica após 1848 e conseguiu cooptar a classe operária. A social democracia ficou entre diversas influências e mediações e com extrema dificuldade em manter o impulso inicial.Não soube sair desta contradição entre uma utopia humanitária e o imediato da politica e das carências dos trabalhadores.Tratarei disto em outro trabalho,mas este é o contexto em que se foram criados alguns conceitos da social democracia,que até agora servem como ponto de debates.

Ha que ressaltar,porém,que a questão é a condição objetiva.Na teoria comunista tem- se a impressão de que ele pode vir pura e simplesmente do desenvolvimento do capitalismo,esteja onde ele estiver,diluindo progressivamente o estado.

Eu já citei um trecho de Marx em que ele mostrava o porquê tal não aconteceria:somente superando as condições internacionais de exploração do capitalismo seria possível.

Na voragem do tempo e dentro das condições concretas de vida e de politica certas coisas são esquecidas:a Comuna de Paris não tinha como prosperar seguindo esta premissa e nem o socialismo evolucionário de Bernstein.

Parece que se perderam estas noções diante da suposta vitória extraordinária da Revolução Russa,mas ela estava fadada ao fracasso.Nenhuma das condições essenciais para a utopia estavam dadas naquele país e o seu isolamento selou seu destino.



quinta-feira, 29 de abril de 2021

O marxismo é como o irmão mais velho que quer substituir o pai 

 

Aproveitando a minha concordância já tantas vezes demonstrada com aqueles que unem Freud e Marx me disponho neste artigo a discutir o papel futuro do marxismo que é um dos objetivos fundamentais deste A ponte. 

Ninguém é obrigado naturalmente a aceitar essa integração entre a discussão racional sobre uma teoria que passa efetivamente muito mais pelo problema da explicação da realidade e da necessidade de mudá-la do que de questõe subjetivas. 

Mas a busca da utopia ,que é o que subjaz à teoria marxista não prescinde de outros fatores que não sejam só puramente racionais, seja pela necessidade política de arregimentar as pessoas , seja para considera-las como são realmente(problemas imbricados),seja para construir mesmoa utopia .

Não há como evitar essa relação que não se resume evidentemente à figura de Freud,mas relaciona com outros psicólogos.

No entanto eu entendo que Freud é basilar e prioritário porque mostra que o problema humano da utopia não se refere tanto às causas das neuroses ,que isso realmente interessa mais aos divans.Freud, como eu já falei em outras ocasiões, sistematiza algo decisivo para a compreensão teórica e científica da realidade: que não existe uma adequação perfeita entre a linguagem e o mundo real,como tentam provar algumas pretensões evidentes de Marx e outros pensadores racionalistas. Sem falar na autonomia da subjetividade,negada pelo cientificismo.

Em tudo isso assume importância o fato de que essa pretensão marxista de fazer ciência ,bem como de outros pensadores, (inclusive Freud), é uma tentativa de compreender totalmente o mundo e de dominá-lo.Um projeto tipicamente cartesiano que entende a previsibilidade científica como algo inelutável e próprio da ciência .

Antes da física moderna que colocou a previsibilidade como algo inelutável Freud cristalizou a tendência tantas vezes reiterada pelos céticos de que o pensamento humano ,bem como a ciência, não tem esta certeza ,essa previsibilidade ,se não com determinados condicionantes percebidos pela investigação . A dialética hegeliano  marxista é um dos últimos momentos do paroxismo racionalista que pretendia e pretende prever o que vai acontecer numa escala de tempo quase que milenar.

Para o cientista essa afirmação não tem nada de delirante por que ele supõe ter um meio de prova ,mas desde  sempre  esse edifício científico fechado vem sendo destruído e sofrendo fraturas e rupturas reveladoras.

A previsibilidade é tão delirante quanto as afirmações megalomaníacas de Hitler sobre o Reich de mil anos.Ela é tão delirante quanto às afirmações de Allende quando tomou posse da história para si e para os seus antes de atirar em si próprio. 

Assim sendo todo o racionalista e o marxismo padecem de um certo infantilismo de não reconhecer que a adequação com o mundo inclui as emoções ,o desejo, os sentimentos e não há como por um ato de escolha abrir mão disto.

Só com determinados objetivos pré determinados você pode ficar só com a razão e mesmo assim no caso da utopia ,a pura razão não é suficiente para abarcar o maior número de problemas a ser investigados na sua busca. 

A atitude cientificista de  construir um modelo explicativo definitivo arroga para o seu criador a condição de dono do processo explicativo e no caso do marxismo, do processo político.

Mas como na vida psíquica e na vida cotidiana não há uma impermeabilidade entre o discurso explicativo e o mundo real ,não só do ponto de vista epistemológico, mas também ético e psicológico,este “ poder” é ilusório.

Essa impermeabilidade racional ,só se dá no seio da família e na vida cotidiana por diferenças de idade entre os homens marcando uma incomunicabilidade.Esta impermeabilidade ,entre um pai e um filho,no entanto,tem que ser superada para o bem da sociedade.

O marxismo sabe dessa abertura e  pensa preenchê-la pelo movimento dialético,mas o movimento ,que está no tempo( o tempo é dialético?), sem o homem é um modelo abstrato metafisico.

Isto tudo é para dizer que o marxismo quer ser dono de algo que não é dele,mas de todos:o tempo.E que no plano do cotidiano,nas relações inter-pessoais,a concepção dialética não dá conta dos inumeros problemas sociais integrados na questão da utopia.

É como um pai que quer ensinar algo a seu filho,no cotidiano,recorrendo à dialética, ao materialismo dialético,não ao cotidiano mesmo.

Assim sendo é de se perguntar o que fica do marxismo para o futuro,temas para outros artigos.

sábado, 3 de abril de 2021

O que é comunismo realmente


o comunismo é criação da tradição judaico-cristã

Eu fico ouvindo certos comentaristas,pelas radios aí,anticomunistas,e mesmo radicais de esquerda,novos ou velhos e percebo que ninguém ,até hoje,sabe o que é a proposta comunista criada nos dois primeiros séculos do cristianismo,no tempo das prédicas de São Paulo,que afinal, era comunista!São Paulo é um dos criadores do comunismo.

Esta visão cristã primitiva(no sentido de primeiro)passou pela filosofia e pela politica do ocidente durante séculos e chegou ao periodo do Iluminismo Alemão(aufklarung[esclarecimento]) e se tornou um projeto para a humanidade ,a partir da observação que este iluminismo(porque não foi só o iluminismo francês)fez do crescimento exponencial da riqueza ,no industrialismo inglês.

O principio básico do comunismo,no sentido próprio do termo,é aquele da comunidade primitiva cristã,que por sua vez,dava continuidade,mais ou menos,ao comunismo primitivo das sociedades pré-históricas.Nestas,no entanto, a divisa “ de cada um segundo a sua capacidade,a cada um segundo a sua necessidade” não era homogêneo,não se aplicando a todas as comunidades.

As comunidades primitivas são muito idealizadas.Neste aspecto a direita tem uma certa razão:não é verdade que o indio tenha “ consciência ambiental”.Muito pelo contrário,ele depredou a natureza e foi responsável pela extinção de muitos animais.Não é verdade que não houvesse crueldade ou tortura nestas sociedades.Indios americanos praticavam tortura para intimidar adversários e inimigos.Em certas comunidades primitivas os velhos,que não prestam para nada supostamente,são abandonados em locais escolhidos para simplesmente morrer.E aqui no Brasil há indios que deixam suas crias morrer ,por impossibilidade de criação ou por motivos religiosos.Abandone-se toda a idealização aqui.

No cristianismo primitivo,que não era muito diferente da organização material das comunidades primitivas,mas com um nivel cultural e de consciência maior,o princípio da solidariedade,pelo menos ,no discurso,supera esta heterogeneidade de comportamento primitivo.

Aquele que pode oferecer mais ao outro oferece ,se iguala a ele ,no interior da comunidade.Por este principio de solidariedade,no discurso ,ninguém é excluido.

Quando Lessing e os iluministas alemães tomaram conhecimento destes valores o incorporaram a uma ideia de comunismo que deveria se adaptar à nova realidade da primeira onda industrial,cujo ápice foi em 1750(Hobsbawn).

Se o ser humano era capaz agora de produzir quase infinitamente os bens que lhe são necessários para o bem viver,porque não pensar num comunismo que fosse apto a dividir estas imensas riquezas fraternalmente entre todos?Afinal ,a escassez havia sido superada e não fazia sentido só alguns terem estas benesses.Lessing era comunista!Mantendo o princípio de solidariedade cristão ,pensava ele ,era possível dividir entre todos e elaborou a divisa,que reverberou em Marx um século depois:” de cada um segundo a sua capacidade,a cada um segundo sua necessidade”.

Uma ideia que podia ser aplicada na família e na sociedade,mas que esbarra em problemas de todos os niveis.

Se a sociedade é exponencialmente produtiva esta produção podia ficar permanentemente à disposição dos indivíduos,o que acabaria com as diferenças de classe ,que geram todas as outras barreiras,supostamente.Tanto o rico quanto o pobre(que já não é)receberiam a mesma coisa e igualados ,as suas diferenças despareceriam,abrindo possibilidades de relacionamento humano e não de classe(as classes desumanizam).

E neste contexto, este estado de classe ,que garante esta divisão anti-humana deve desaparecer e dar lugar a uma estrutura administrativa somente,como dizia Engels,na polêmica com o anarquismo.Não era um estado no seu significado próprio,mas só um mecanismo de distribuição dos bens e garantia do quê?...Vamos deixar esta dúvida,por enquanto.

Lênin,pouco antes de “fazer”a “Revolução Russa” escreveu um livro importantíssimo sobre estes assuntos “O Estado e a Revolução”,no qual cita trechos da obra de Marx,como “ A guerra civil em França “ de 1871(sobre a Comuna de Paris),nos quais fica clara a incompatibilidade entre um Estado inflado e forte e invasivo(para não dizer totalitário)e o comunismo.

Conhecendo intelectuais marxistas,como eu conheço,sempre querendo(platonicamente)intervir na prática ,tenho certeza de que Marx e Engels estariam em 1917.Não resistiriam em participar,mas era obrigatorio para eles repudiar o stalinismo e seu estado totalitário.Se continuassem, estariam em contradição com o que disseram a vida inteira e seria ou loucura ou oportunismo cinico.Se.

Também me choca como Lênin,tendo analisado estas obras fundamentais de Marx e Engels ,tivesse intentado esta precipitação que foi a Revolução na Rússia.Mas levando em conta as premissas do parágrafo anterior,admite-se uma certa esperança excessiva,um certo desejo excessivo em 1917,diante das oportunidades que estavam à sua frente(guerra mundial,esfacelamento do czarismo).Mas ,depois,com a crescente e inevitável burocratização do Estado Soviético,era exigivel no minimo que ele percebesse os problemas óbvios de se construir o comunismo num país como a Rússia.E não foi por falta de aviso:Plekhanov,os mencheviques e Martov(lider destes últimos),se colocaram contra esta revolução e a história lhes deu razão.Isto sem falar nos avisos dos austro-marxistas e da II internacional.

No mesmo texto sobre a Comuna ,Marx diz que o socialismo era só uma fase curta,para mobilizar a todos no intuito de produzir exponencialmente e obter os bens para distribuir igualmente por todos.Para criar o comunismo e mantê-lo em pé,evitando o retorno à escassez.Era preciso admitir a igualação de todos neste propósito,mas que deveria ser limitado aos objetivos. A continuidade infinita do socialismo,sem a perspectiva próxima do comunismo,era ilegitimo.E é.Pois manter igualados seres desiguais por natureza,como são os homens é perpetrar injustiças.Hannah Arendt tem razão em associar Marx com Locke,como fez Hannah Arendt em “A Condição Humana”.

E foi isso o socialismo real,que é só uma extensão infinita deste periodo transitório.Eu,na condição de comunista jovem,me incluia entre aqueles que pretendiam preservar o socialismo,até que a revolução mundial ocorresse(principalmente depois da revolução cubana) e tirasse a URSS e o socialismo real do isolamento,acabando por tabela com o seu caráter ditatorial.Se os outros povos ajudassem o socialismo real,este perderia este seu caráter ,porque a ditadura socialista era para manter as conquistas até que o comunismo viesse,com a sua plenitude produtiva.Esta plenitude dissolve a ditadura.O totalitarismo do socialismo real se sustenta por sobre a penuria reproduzida pelo estado totalitário,mas criada por uma revolução mal fundamentada.

Mas sem o horizonte da utopia socialismo nenhum é legitimo e é por isto que eu digo que o socialismo real acabou e não deve voltar.A insistência nele,por parte da esquerda mundial(incluindo a Internacional Progressive)é o que está levando a direita a se estabelecer.

Pelos textos de Marx e Engels não há como culpá-los do socialismo real;todavia,há alguns elementos do pensamento de ambos que induzem a relacioná-lo(ver dúvida acima) com um humanismo idealizador não necessariamente ideológico(como consciência falsa[oposta à ciência]),contra a visão(cientificista)de Althusser:se o comunismo,como está na Ideologia Alemã e nos seus fundamentos históricos passados,torna todos iguais em termos materiais(espirituais e culturais é outra coisa),construindo assim uma comunidade identificada com o ser humano,é porque Marx( e Engels)admitiam uma humanidade,um princípio abstrato e ideal de humanidade,que não teriam abandonado na fase madura de sua contribuição.Isto acabaria com a distinção entre o jovem e o velho Marx,a favor de Althusser.Mas ela se mantém,em outros termos diferentes, dos postos por este último,na medida em que as questões culturais e espirituais poderiam e deveriam ser desenvolvidas por Marx (e Engels),se (se)reconhecessem que as ideias guardam autonomia na vida social.Não é que os dois fossem pavlovianos,mas deixaram uma lacuna que permitiu a seus continuadores entender a superestrutura como mera “ expressão” da infraestrtura econômica.E assim em outros passos da aventura de Marx e seu companheiro de viagem.

Neste projeto humano há uma desautorização da desqualificação de qualquer classe ,inclusive,a burguesia,como anti-humana.O que está de acordo com o prefácio de Marx à primeira edição de O Capital em que ele distingue bem a figura pessoal do capitalista de seu papel na engrenagem.Este “ local” do pensamento marxista,deriva da discussão anterior e prévia sobre o humanismo:o papel do capitalista é anti-humano,mas ele só o é na medida em que interage com este papel.Se(se)este papel é inelutável,esta distinção cai por terra e todas as violências praticadas contra a burguesia(por vingança contra as da burguesia contar os trabalhadores)são justas.Todo o esforço de caridade,de ajuda,de reconhecimento dos direitos dos trabalhadores não justifica tratá-los bem.Não adianta George Soros ler Marx,porque na hora H ele será massacrado!Esta contradição no pensamento de Marx(e de Engels),entre um humanismo projetado na utopia e realidade concreta parece ser solucionada quando Marx et al,resume a sua teoria da violência no direito da maioria trabalhadora de suprimir a minoria exploradora(quem?quem?). A violência se justifica pelo bem posterior de colocar o explorador numa condição melhor do que ele estava.Da desumanidade ele “ evolui” para a humanidade.Parecem aqueles discursos de Bush filho e João Figueiredo de levar a democracia aos outros na marra.

Contudo há esta contradição sim ou antes um distúrbio,um ruido neste discurso todo,que a meu ver só se desata com o existencialismo.Eu falarei disto num outro artigo,que este já se prolonga.

Eu vou bater nesta questão do comunismo,mais e mais vezes em vista destes erros propositais ou não,de setores da midia,que insistem erradamente em identificar o comunismo com o estado e o socialismo real.Mas não só setores de direita.Setores de esquerda mal fundamentados (grande maioria)também.Quanto mais comunismo,menos estado.

sexta-feira, 26 de março de 2021

Meu terceiro livro sobre marxismo


 

Esclarecimentos finais sobre Rosa Luxemburg

 

Os meus artigos são polêmicos porque atacam uma corrente de pensamento que teve muito sucesso recente e por isto eu retorno muitas vezes a temas que eu poderia abandonar ,mas que não faço,exatamente para responder às criticas que eu recebo e que certamente continuarei a receber.

Este artigo é final ,mas não definitivo,porque a figura histórica de que trato aqui,Rosa Luxemburgo,está presente permanentemente nas minhas elucubrações.

Contudo,alguns questionamentos eu considero resolvidos em minha consciência:Rosa era uma intelectual que fazia politica,como é comum no marxismo.Esta dubiedade não é nada fácil na vida e especialmente no marxismo.O único politico filósofo que se equilibra bem nestas duas atividades profissionais é Marco Aurelio,o Imperador Romano,mas eu não vou abordá-lo agora.

Neste ruido ,que espouca nesta relação profissional desequilibrada muitas coisas erradas acontecem.O tempo do intelectual,que é mais extenso e complexo atrapalha as necessidades práticas da politica,atividade mais imediata e rápida.Neste sentido Rosa,como tantos outros intelectuais que se meteram na politica(Platão ,no começo da filosofia,inclusive,que fracassou rotudamente),não escapa dos desatinos que esta tentativa de unir teoria e prática provoca.

Até mais ou menos 1916,ninguém sabia como terminaria a guerra de 14/18,que não era compreendida em seu significado histórico por ninguém,na direita e na esquerda.Esta guerra não era ainda vista como a “ guerra para acabar com todas as guerras”,uma guerra mundial nunca vista.Um fato (quase)singular.

Diante desta premissa o posicionamento de Rosa não era diferente da de Engels no século XIX:era preciso apoiar a guerra para não perder contato com os trabalhadores operários, e para (posição de Engels)evitar o perigo ,que vinha desde a época de Napoleão,de hegemonia definitiva da Rússia.

Rosa não apoiou a guerra,ela acompanhou a postura oportunista da II internacional de ficar em “cima do muro”,que no fundo era apoiar a guerra de fato,mas que era entendida,dentro da análise feita acima do significado histórico ainda não assimilado da guerra,como não se comprometer com uma guerra imperialista,de interesse das classes altas só.

E partindo deste oportunismo e admitindo não prescrutar bem o papel histórico da guerra formou-se uma dupla Rosa Luxemburg e Karl Liebknecht:a primeira defendia a posição dela e a segunda internacional e o segundo a ideia de ficar contra a guerra.

Isto,no entanto,é um truque,que se tornou muito comum,na politica do marxismo.Depois da invasão da Tchecoeslováquia,ao se perceber o declinio do comunismo,muitos partidos(inclusive o do Brasil)entraram por este oportunismo,permitindo que alguns de seus militantes se dissessem não comunistas,o que é meio contraditório,pois uma pessoa que não é mais comunista não tem razão de atuar em um partido comunista.

Com o desenrolar da guerra e a derrocada da Alemanha ,Rosa pendeu mais e mais para a posição radical de Liebknecht e tomou a decisão de fundar o partido comunista da Alemanha,em 1918,sob a forma do spartaquismo,em novembro de 1918.

Embora não houvesse uma intenção de unir a revolução russa com a revolução na Alemanha(projeto acalentado por setores do marxismo),esta decisão ressoou na cabeça dos alemães como tal.Lênin ainda não tinha feito as tentativas de unir as duas nações,como o fará em 1919,pela Hungria de Bela Kun e em 1920,pela Polônia, mas a fundação do spartaquismo foi interpretada desta maneira.

A explicação desta “ translação” de Rosa é aquele ruido,tipico do intelectual,que sempre descolado da realidade prática ,quando a entende,quando entende este descolamento se precipita para acompanhar o movimento.

Se o Partido Social-Democrata,no governo em 1918 contribuiu para o assassinato de Rosa e Liebknecht deve ser responsabilizado sim,mas isto não obscurece os erros fatais de Rosa,que,sem o saber(damos o desconto)ajudou a fomentar o anti-semitismo e o nazismo na Alemanha.


terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

Esclarecimentos sobre Karl Marx e seu adulterino

 

Em face da repercussão de meu artigo sobre o bastardo de Marx,preciso fazer alguns esclarecimentos e aprofundamentos.

Muita gente achou que eu não deveria ter me intrometido em questões tão pessoais e realmente não sou de fazer isto nunca,porque não gosto que façam o mesmo comigo.

Mas é evidente que eu fiz este artigo pelo significado histórico de Marx e usei o mesmo critério para falar ,por exemplo,de Garrincha,com repercussões desfavoráveis também.

Ninguém é obrigado a ser exemplo de nada e tem o direito de proteger ,sob anonimato, a sua vida pessoal,mas é impossível para uma figura pública não ser julgado por seus atos e quer queira ela ou não as pessoas a usam para se orientar nas suas atividades,quero dizer as pessoas comuns.

Estas pessoas comuns vinham aqui no meu blog falar sobre as virtudes de Karl Marx,as suas imensas qualidades e “ vendem” isto como prova da justeza daquilo que ele defendeu e propôs.

Ora,tal atitude é ,no minimo,infantil.O conhecimento transcende a figura individual.Todo materialista monista se embota nesta incompreensão,na medida em que não vê que há uma distinção entre a pessoa do criador, do intelectual e do cientista e a sua obra.

Aliás recebi críticas por meus artigos contra Stalin e por meus supostos elogios a Locke.Alguns radicais me jogam na cara(como se eu não soubesse)que Locke tinha escravos,como se isto iniviabilizasse o seu pensamento liberal e legitimasse de pronto e de plano a visão igualitária dos comunistas.

Espirito de partido(sucedâneo de jacobinismo)na história e na vida é puro delirio.É como se fosse possível em qualquer época o homem,por um ato de vontade ,encontrar a verdade das coisas e mudar o mundo a partir dela.Eu canso de criticar Stalin ,mas analiso de forma escrupulosa os seus textos.

Às vezes se juntam a personalidade e a obra de alguém,às vezes não,mas a postura do pesquisador é distinguir as duas coisas.

Eu poderia usar um principio de transcendência,de que eu falo tanto,para tratar da desigualdade natural dos homens sem citar Locke,apenas como um fenômeno social,mas não tem como separar de quem enunciou este principio social o nome,pois seria até uma falha pedagógica , crítica e profissional no minimo.

A crítica ao espirito de partido também se volta contra mim,na medida em que ele sustenta a ideia de que as figuras históricas são datadas e condicionadas,não sendo possível julgá-las,como no caso de Marx e seu adulterino.

Contudo,este problema é complexo.Prosper Merimèe,autor de “ Carmen” ,escreveu um famoso prefácio ao seu romace histórico “Crônica do Reinado de Carlos IX”,Rei que patrocinou ,junto com a sua mãe Catarina de Médicis, a chacina da noite de são Bartolomeu.Neste prefácio ele defende uma tese antitese à comunidade universal de Kant.Merimè diz que não se pode julgar um povo ou uma época por um critério moral,porque os povos são concretos e constróem as suas regras segundo as suas necessidades imediatas.O fato de haver direitos humanos na França não obriga a Turquia a modificar os seus valores locais,que não podem ser criticados.Eu digo,por meu lado,pode e deve.

O fato de a comunidade universal ser uma construção histórica,no tempo,não esconde o fato de que o sofrimento é universal,reconhecido pelo cristianismo,que lançou a primeira pedra fundamental desta comunidade.Mesmo antes do cristianismo o sofrimento é igual em todo lugar,em toda época.

Assim sendo as circunstâncias narradas por mim no artigo sobre este passo da vida de Marx podem e deve ser julgadas e não relativizadas.Muito menos escondidas para vender uma ideia de mitologização de uma pessoa para fins politicos(certamente escusos[porque baseado numa falsidade]).

A única coisa que é mais relativa em tudo o que falei,é a questão da virgindade das filhas.Como se sabe o pensador era muito rigoroso com isto aí,mas também se pode discutir ,no seu tempo,esta liberdade,caso as filhas assim o desejassem.A filha caçula Eleanor ,inclusive,tomou conhecimento de Freud e ,de repente,teria condições de reinvidincar mais liberdade,sem preocupação com a época.

Traição transcende as épocas,como o cristianismo e muitas outras coisas.O sofrimento de Jenny,esposa de Marx ,em 1850 é o mesmo hoje.A questão moral é a mesma.

Então não há motivo para transformar um ser humano num Deus.



quarta-feira, 13 de janeiro de 2021

O que foi realmente o socialismo real III

 

Continuando o artigo anterior,eu me lembro que quando comecei este meu trabalho de pesquisador, tratei de um assunto sobre o indefectivel Kant e as Revoluções.

Ora ,Kant presenciara e analisara a Revolução Francesa e o modo como ele resumiu seu pensamento sobre os seus descaminhos nos influencia até hoje.

O texto de Kant mais conhecido sobre a Revolução e que eu analisei há muitos anos foi “ o conflito das faculdades”.

O que nos interessa é a conclusão dele sobre estes descaminhos de 1789 especialmente demonstrados no afã deste movimento em buscar símbolos,notadamente do passado,para assegurar a sua unidade.

Quando uma revolução busca simbolos do passado é porque não tem um projeto unificado e real.Veja bem o leitor:não disse que a revolução francesa não tem um programa,mas desde o inicio e principalmente na fase republicana,ela foi presa de divisões internas que se foram aprofundando a partir desta fase.

Esta observação é minha.A de Kant se refere a outro problema que está imbricado com ela:as revoluções,quando se dividem ,quando são reféns de processos de dissensão(inevitáveis?) ,buscam estes simbolos e os reiteram constantemente,para unificar de algum modo,o movimento,que já perdeu esta condição,supostamente essencial de toda a revolução.

Mas a verdade total é que a busca do passado e dos simbolos revela falta de conteúdo no presente e necessidade de encontrar em algo que já não existe mais ou tem uma influência tênue, um elemento unificador das “ vontades” que se apresentam nas revoluções.

Quando o regime soviético estava já em decomposição ,nos anos 80 do século passado,a forma de unificar as divisões evidentes do poder,que vinham desde Lênin(o único que unificava as facções),foi a gerontocracia, a escolha de velhos,de pessoas já bem velhas para fazer esta unidade.

De modo geral o movimento comunista foi sempre refém disto aí.E isto aí significa que as personalidades e os simbolos são um meio de ajudar a construir uma unidade que não tem raízes sólidas,porque os movimentos ,as revoluções, não têm bases seguras e são ,no mais das vezes ,imposições possibilitadas por situações históricas.

Eu sigo muito Hannah Arendt na defesa que faz das revoluções burguesas,especialmente as de 1640 e 1688,esta última a única revolução real da história sem praticamente nenhuma violência.

Dentro de uma sociedade homogênea e que evolui com esta homogeneidade,é factivel,num momento de transformação,evitar estes simbolos,tê-los o minimo desejado,porque a sociedade está unida dentro de propósitos tão radicados na sua prática cotidiana que não há porque usá-los.

Este é o melhor caminho,mas não aconteceu na Revolução Francesa e Russa.Foi necessário usar mecanismos para manter uma unidade falsa,decorrente da falta de fundamento real nestes processos.

Assim o uso do estado,de seus simbolos,na forma totalitária do socialismo real ,fato totalmente integrado ao papel cada vez mais crescente do estado em geral no século XX,significou um compromisso de ajuda ao povo,ao povo trabalhador,num grau de radicalidade ou mais profundidade do que o estado previdenciário por exemplo.

O estado de todo o povo foi a proposta”(imposição) stalinista de supressão das classes.Mas diferentemente do estado previdenciário,baseado em estado de direito e em formas republicanas de convivência este estado ideológico cobra um retorno em aceitação e legitimação por cumprir a sua obrigação de prover a todos,as suas necessidades básicas.

A diferença da revolução francesa para a russa é esta:esta devolução,que se parece mais com os processos religiosos de ajuda e comparecimento aos cultos,como condição de uma aliança e pacto de aceitação mútua.

É e não é diferente do estado nazista na medida em que se exige esta troca,mas neste último,parte-se do princípio racial.Na verdade tudo isto tem a ver com a politica,no seu sentido mais distorcido da palavra.


sexta-feira, 1 de janeiro de 2021

O que foi de fato o socialismo real II

 

O socialismo foi a prolongação excessiva daquilo que Marx considerava impróprio,indequado:o socialismo.Na sua proposta de fases para se chegar ao comunismo ,exposta em “ A Guerra Civil em França”,ele diz que o socialismo é um momento em que todos se igualam no trabalho para produzir a abundância capaz de suprir as necessidades de todos sem distinção,mantendo a desigualdade natural entre os homens.

O que ocorreu(e ocorre)no socialismo real,a partir de 17 é a igualação permanente e total,com seus atributos de violência e imposições que vimos.

E as tentativas finais de Gorbachev com a perestroika eram para no âmbito deste regime tentar garantir que esta desigualdade fosse reconhecida.Aquele que trabalha mais se sentia(é uma das consequencias da igualação forçada)desmotivado a trabalhar,porque o preguiçoso recebia o mesmo que ele,uma lei da natureza humana ignorada pelos comunistas que edificaram este socialismo.

E como não é possível que a sociedade imponha a si mesma esta igualação forçada ,só o estado pode fazê-lo e como ele não acabou,dentro das previsões de Marx,rapidamente, é ele,totalmente inflado,que acaba realizando esta tarefa de cima para baixo.

O socialismo real se tornou um estado previdenciário radical,comprometido em suprir as necessidades mais intimas do ser humano,mas sem base econômica produtiva para garantir isto.De fato ele tem indices sociais extraordinários,como o socialismo cubano que não deixa criança na rua,supostamente.Mas estas,quando crescerem, não têm alternativa ,não têm futuro.

E além do mais o que este socialismo faz alguns países muçulmanos ,teocráticos,conseguem fazer.Eu vou tratar disto no próximo artigo.