sexta-feira, 26 de março de 2021

Esclarecimentos finais sobre Rosa Luxemburg

 

Os meus artigos são polêmicos porque atacam uma corrente de pensamento que teve muito sucesso recente e por isto eu retorno muitas vezes a temas que eu poderia abandonar ,mas que não faço,exatamente para responder às criticas que eu recebo e que certamente continuarei a receber.

Este artigo é final ,mas não definitivo,porque a figura histórica de que trato aqui,Rosa Luxemburgo,está presente permanentemente nas minhas elucubrações.

Contudo,alguns questionamentos eu considero resolvidos em minha consciência:Rosa era uma intelectual que fazia politica,como é comum no marxismo.Esta dubiedade não é nada fácil na vida e especialmente no marxismo.O único politico filósofo que se equilibra bem nestas duas atividades profissionais é Marco Aurelio,o Imperador Romano,mas eu não vou abordá-lo agora.

Neste ruido ,que espouca nesta relação profissional desequilibrada muitas coisas erradas acontecem.O tempo do intelectual,que é mais extenso e complexo atrapalha as necessidades práticas da politica,atividade mais imediata e rápida.Neste sentido Rosa,como tantos outros intelectuais que se meteram na politica(Platão ,no começo da filosofia,inclusive,que fracassou rotudamente),não escapa dos desatinos que esta tentativa de unir teoria e prática provoca.

Até mais ou menos 1916,ninguém sabia como terminaria a guerra de 14/18,que não era compreendida em seu significado histórico por ninguém,na direita e na esquerda.Esta guerra não era ainda vista como a “ guerra para acabar com todas as guerras”,uma guerra mundial nunca vista.Um fato (quase)singular.

Diante desta premissa o posicionamento de Rosa não era diferente da de Engels no século XIX:era preciso apoiar a guerra para não perder contato com os trabalhadores operários, e para (posição de Engels)evitar o perigo ,que vinha desde a época de Napoleão,de hegemonia definitiva da Rússia.

Rosa não apoiou a guerra,ela acompanhou a postura oportunista da II internacional de ficar em “cima do muro”,que no fundo era apoiar a guerra de fato,mas que era entendida,dentro da análise feita acima do significado histórico ainda não assimilado da guerra,como não se comprometer com uma guerra imperialista,de interesse das classes altas só.

E partindo deste oportunismo e admitindo não prescrutar bem o papel histórico da guerra formou-se uma dupla Rosa Luxemburg e Karl Liebknecht:a primeira defendia a posição dela e a segunda internacional e o segundo a ideia de ficar contra a guerra.

Isto,no entanto,é um truque,que se tornou muito comum,na politica do marxismo.Depois da invasão da Tchecoeslováquia,ao se perceber o declinio do comunismo,muitos partidos(inclusive o do Brasil)entraram por este oportunismo,permitindo que alguns de seus militantes se dissessem não comunistas,o que é meio contraditório,pois uma pessoa que não é mais comunista não tem razão de atuar em um partido comunista.

Com o desenrolar da guerra e a derrocada da Alemanha ,Rosa pendeu mais e mais para a posição radical de Liebknecht e tomou a decisão de fundar o partido comunista da Alemanha,em 1918,sob a forma do spartaquismo,em novembro de 1918.

Embora não houvesse uma intenção de unir a revolução russa com a revolução na Alemanha(projeto acalentado por setores do marxismo),esta decisão ressoou na cabeça dos alemães como tal.Lênin ainda não tinha feito as tentativas de unir as duas nações,como o fará em 1919,pela Hungria de Bela Kun e em 1920,pela Polônia, mas a fundação do spartaquismo foi interpretada desta maneira.

A explicação desta “ translação” de Rosa é aquele ruido,tipico do intelectual,que sempre descolado da realidade prática ,quando a entende,quando entende este descolamento se precipita para acompanhar o movimento.

Se o Partido Social-Democrata,no governo em 1918 contribuiu para o assassinato de Rosa e Liebknecht deve ser responsabilizado sim,mas isto não obscurece os erros fatais de Rosa,que,sem o saber(damos o desconto)ajudou a fomentar o anti-semitismo e o nazismo na Alemanha.


terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

Esclarecimentos sobre Karl Marx e seu adulterino

 

Em face da repercussão de meu artigo sobre o bastardo de Marx,preciso fazer alguns esclarecimentos e aprofundamentos.

Muita gente achou que eu não deveria ter me intrometido em questões tão pessoais e realmente não sou de fazer isto nunca,porque não gosto que façam o mesmo comigo.

Mas é evidente que eu fiz este artigo pelo significado histórico de Marx e usei o mesmo critério para falar ,por exemplo,de Garrincha,com repercussões desfavoráveis também.

Ninguém é obrigado a ser exemplo de nada e tem o direito de proteger ,sob anonimato, a sua vida pessoal,mas é impossível para uma figura pública não ser julgado por seus atos e quer queira ela ou não as pessoas a usam para se orientar nas suas atividades,quero dizer as pessoas comuns.

Estas pessoas comuns vinham aqui no meu blog falar sobre as virtudes de Karl Marx,as suas imensas qualidades e “ vendem” isto como prova da justeza daquilo que ele defendeu e propôs.

Ora,tal atitude é ,no minimo,infantil.O conhecimento transcende a figura individual.Todo materialista monista se embota nesta incompreensão,na medida em que não vê que há uma distinção entre a pessoa do criador, do intelectual e do cientista e a sua obra.

Aliás recebi críticas por meus artigos contra Stalin e por meus supostos elogios a Locke.Alguns radicais me jogam na cara(como se eu não soubesse)que Locke tinha escravos,como se isto iniviabilizasse o seu pensamento liberal e legitimasse de pronto e de plano a visão igualitária dos comunistas.

Espirito de partido(sucedâneo de jacobinismo)na história e na vida é puro delirio.É como se fosse possível em qualquer época o homem,por um ato de vontade ,encontrar a verdade das coisas e mudar o mundo a partir dela.Eu canso de criticar Stalin ,mas analiso de forma escrupulosa os seus textos.

Às vezes se juntam a personalidade e a obra de alguém,às vezes não,mas a postura do pesquisador é distinguir as duas coisas.

Eu poderia usar um principio de transcendência,de que eu falo tanto,para tratar da desigualdade natural dos homens sem citar Locke,apenas como um fenômeno social,mas não tem como separar de quem enunciou este principio social o nome,pois seria até uma falha pedagógica , crítica e profissional no minimo.

A crítica ao espirito de partido também se volta contra mim,na medida em que ele sustenta a ideia de que as figuras históricas são datadas e condicionadas,não sendo possível julgá-las,como no caso de Marx e seu adulterino.

Contudo,este problema é complexo.Prosper Merimèe,autor de “ Carmen” ,escreveu um famoso prefácio ao seu romace histórico “Crônica do Reinado de Carlos IX”,Rei que patrocinou ,junto com a sua mãe Catarina de Médicis, a chacina da noite de são Bartolomeu.Neste prefácio ele defende uma tese antitese à comunidade universal de Kant.Merimè diz que não se pode julgar um povo ou uma época por um critério moral,porque os povos são concretos e constróem as suas regras segundo as suas necessidades imediatas.O fato de haver direitos humanos na França não obriga a Turquia a modificar os seus valores locais,que não podem ser criticados.Eu digo,por meu lado,pode e deve.

O fato de a comunidade universal ser uma construção histórica,no tempo,não esconde o fato de que o sofrimento é universal,reconhecido pelo cristianismo,que lançou a primeira pedra fundamental desta comunidade.Mesmo antes do cristianismo o sofrimento é igual em todo lugar,em toda época.

Assim sendo as circunstâncias narradas por mim no artigo sobre este passo da vida de Marx podem e deve ser julgadas e não relativizadas.Muito menos escondidas para vender uma ideia de mitologização de uma pessoa para fins politicos(certamente escusos[porque baseado numa falsidade]).

A única coisa que é mais relativa em tudo o que falei,é a questão da virgindade das filhas.Como se sabe o pensador era muito rigoroso com isto aí,mas também se pode discutir ,no seu tempo,esta liberdade,caso as filhas assim o desejassem.A filha caçula Eleanor ,inclusive,tomou conhecimento de Freud e ,de repente,teria condições de reinvidincar mais liberdade,sem preocupação com a época.

Traição transcende as épocas,como o cristianismo e muitas outras coisas.O sofrimento de Jenny,esposa de Marx ,em 1850 é o mesmo hoje.A questão moral é a mesma.

Então não há motivo para transformar um ser humano num Deus.



quarta-feira, 13 de janeiro de 2021

O que foi realmente o socialismo real III

 

Continuando o artigo anterior,eu me lembro que quando comecei este meu trabalho de pesquisador, tratei de um assunto sobre o indefectivel Kant e as Revoluções.

Ora ,Kant presenciara e analisara a Revolução Francesa e o modo como ele resumiu seu pensamento sobre os seus descaminhos nos influencia até hoje.

O texto de Kant mais conhecido sobre a Revolução e que eu analisei há muitos anos foi “ o conflito das faculdades”.

O que nos interessa é a conclusão dele sobre estes descaminhos de 1789 especialmente demonstrados no afã deste movimento em buscar símbolos,notadamente do passado,para assegurar a sua unidade.

Quando uma revolução busca simbolos do passado é porque não tem um projeto unificado e real.Veja bem o leitor:não disse que a revolução francesa não tem um programa,mas desde o inicio e principalmente na fase republicana,ela foi presa de divisões internas que se foram aprofundando a partir desta fase.

Esta observação é minha.A de Kant se refere a outro problema que está imbricado com ela:as revoluções,quando se dividem ,quando são reféns de processos de dissensão(inevitáveis?) ,buscam estes simbolos e os reiteram constantemente,para unificar de algum modo,o movimento,que já perdeu esta condição,supostamente essencial de toda a revolução.

Mas a verdade total é que a busca do passado e dos simbolos revela falta de conteúdo no presente e necessidade de encontrar em algo que já não existe mais ou tem uma influência tênue, um elemento unificador das “ vontades” que se apresentam nas revoluções.

Quando o regime soviético estava já em decomposição ,nos anos 80 do século passado,a forma de unificar as divisões evidentes do poder,que vinham desde Lênin(o único que unificava as facções),foi a gerontocracia, a escolha de velhos,de pessoas já bem velhas para fazer esta unidade.

De modo geral o movimento comunista foi sempre refém disto aí.E isto aí significa que as personalidades e os simbolos são um meio de ajudar a construir uma unidade que não tem raízes sólidas,porque os movimentos ,as revoluções, não têm bases seguras e são ,no mais das vezes ,imposições possibilitadas por situações históricas.

Eu sigo muito Hannah Arendt na defesa que faz das revoluções burguesas,especialmente as de 1640 e 1688,esta última a única revolução real da história sem praticamente nenhuma violência.

Dentro de uma sociedade homogênea e que evolui com esta homogeneidade,é factivel,num momento de transformação,evitar estes simbolos,tê-los o minimo desejado,porque a sociedade está unida dentro de propósitos tão radicados na sua prática cotidiana que não há porque usá-los.

Este é o melhor caminho,mas não aconteceu na Revolução Francesa e Russa.Foi necessário usar mecanismos para manter uma unidade falsa,decorrente da falta de fundamento real nestes processos.

Assim o uso do estado,de seus simbolos,na forma totalitária do socialismo real ,fato totalmente integrado ao papel cada vez mais crescente do estado em geral no século XX,significou um compromisso de ajuda ao povo,ao povo trabalhador,num grau de radicalidade ou mais profundidade do que o estado previdenciário por exemplo.

O estado de todo o povo foi a proposta”(imposição) stalinista de supressão das classes.Mas diferentemente do estado previdenciário,baseado em estado de direito e em formas republicanas de convivência este estado ideológico cobra um retorno em aceitação e legitimação por cumprir a sua obrigação de prover a todos,as suas necessidades básicas.

A diferença da revolução francesa para a russa é esta:esta devolução,que se parece mais com os processos religiosos de ajuda e comparecimento aos cultos,como condição de uma aliança e pacto de aceitação mútua.

É e não é diferente do estado nazista na medida em que se exige esta troca,mas neste último,parte-se do princípio racial.Na verdade tudo isto tem a ver com a politica,no seu sentido mais distorcido da palavra.


sexta-feira, 1 de janeiro de 2021

O que foi de fato o socialismo real II

 

O socialismo foi a prolongação excessiva daquilo que Marx considerava impróprio,indequado:o socialismo.Na sua proposta de fases para se chegar ao comunismo ,exposta em “ A Guerra Civil em França”,ele diz que o socialismo é um momento em que todos se igualam no trabalho para produzir a abundância capaz de suprir as necessidades de todos sem distinção,mantendo a desigualdade natural entre os homens.

O que ocorreu(e ocorre)no socialismo real,a partir de 17 é a igualação permanente e total,com seus atributos de violência e imposições que vimos.

E as tentativas finais de Gorbachev com a perestroika eram para no âmbito deste regime tentar garantir que esta desigualdade fosse reconhecida.Aquele que trabalha mais se sentia(é uma das consequencias da igualação forçada)desmotivado a trabalhar,porque o preguiçoso recebia o mesmo que ele,uma lei da natureza humana ignorada pelos comunistas que edificaram este socialismo.

E como não é possível que a sociedade imponha a si mesma esta igualação forçada ,só o estado pode fazê-lo e como ele não acabou,dentro das previsões de Marx,rapidamente, é ele,totalmente inflado,que acaba realizando esta tarefa de cima para baixo.

O socialismo real se tornou um estado previdenciário radical,comprometido em suprir as necessidades mais intimas do ser humano,mas sem base econômica produtiva para garantir isto.De fato ele tem indices sociais extraordinários,como o socialismo cubano que não deixa criança na rua,supostamente.Mas estas,quando crescerem, não têm alternativa ,não têm futuro.

E além do mais o que este socialismo faz alguns países muçulmanos ,teocráticos,conseguem fazer.Eu vou tratar disto no próximo artigo.


domingo, 27 de setembro de 2020

Um erro pedagógico crasso de Lênin( e de outros aí)

 

Oscar Niemeyer costumava dizer que se a pessoa tivesse 10% de qualidades estava muito bom.Depois afirmou que Lênin pensava do mesmo modo.Mao Tsé tung teria dito em certa ocasião que ele fazia revolução com o que tinha de material humano,sem questionamentos,inclusive de caráter moral.

Não sei efetivamente se Lênin disse isto,mas esta citação revela um pouco sobre o que se entende como pedagogia associada à revolução socialista,mas também às conepções típicas de nossa época,que ainda causam mal-entendidos.

Certa vez no sindicato dos professores do Rio de Janeiro eu disse que as condições prévias educacionais do Brasil não eram iguais às da Europa e fui tachado de seguidor de Berlusconi,que havia feito aquela afirmação sobre a superioridade do continente.

O que eu disse e digo agora contra todos estes personagens nomeados aqui é que o homem não é um ser dissociado do tempo e das condições históricas em que nasce.Em princípio,todo povo e toda pessoa tem condições de aprender e evoluir pelo esforço,mas as condições histórico-temporais jogam um peso muito importante na decisão de crescer educacionalmente.

Os socialistas e comunistas são igualitários e tiram desta “ democratização” dos povos e pessoas a motivação para os esforços de construção da utopia e do novo homem,mas os homens são desiguais e são influenciados pelas referidas coordenadas temporais, a herança que cada geração recebe ,mediatizada sempre por questões de classe ,geográficas,mas nunca raciais,genéticas etc.

Eu trago este assunto aqui para mostrar que não adianta querer,pela força,que se estrutura neste igualitarismo,obrigar a sociedade a evoluir ,porque diante de uma situação social/sociológica determinada é praticamente impossível mudar uma geração já fixada e é preciso jogar com as possibilidades da geração seguinte.

Os bolcheviques fracassaram na questão da mudança econômica da URSS exatamente porque achavam que pura e simplesmente,com a oferta de melhores meios para os camponeses isto os faria produzir mais ,mas pelas razões supraditas camponeses acostumados à enxada não tiveram como aprender algo novo.Esta é a base social inevitável da coletivização forçada,que pegou uma parte dos camponeses irredutíveis e os obrigou a agir segundo as determinações do estado; e aqueles que ainda podiam se modificar foram deixados em semi-liberdade.

Na Portugal socialista da revolução dos cravos as tentativas de criação de cooperativas esbarrou no exclusivismo dos camponeses e na necessidade deles de posse dos seus instrumentos de trabalho para produzir pelo menos o essencial.Os comunistas hegemônicos em 1975,quiseram fazer um movimento idêntico ao que a burguesia fez na Inglaterra do final do século XVII,tida por Marx como a origem violenta do capitalismo industrial moderno:as fiações individuais e caseiras foram renuidas em locais próprios,financiados por endinheirados ,que,diferentemente do que acontece no socialismo fizeram um aporte de capital.Os fiandeiros individuais perderam os seus instrumentos de trabalho,em favor de um salário.No projetado socialismo português isto não foi para a frente por que os camponeses não aceitaram esta expropriação e porque os comunistas não investiram em nada novo.

E estas considerações significam mais um termo de igualação entre o totalitarismo de direita e o de esquerda:as hipérboles fascistas sobre a luta individual,a competição e vitória dos mais fortes acaba não sendo diferente dos questionamentos da esquerda,porque quando alguém como eu mostra as eventuais dificuldades que uma pessoa,uma criança,em aprender ,os militantes acusam de fascistas e as pessoas de fracas e de preconceituosas,supondo a incapacidade da pessoa,por razões de raça ou condição social.Uma vitimização que favorece certas vanguardas,que igualando desiguais,manipulam melhor certos grupos ,que ficam no mesmo lugar,na mesma situação social,sem se emancipar e ultrapassar estas vanguardas e na exaltação romântica e idealizada do pobre,do miserável.Um insight rousseauista no mundo moderno...




domingo, 13 de setembro de 2020

Laços de Família Marx,nem anjo nem demônio

 

Estes filmes sobre Marx sempre se restringem à sua juventude.Biografias escritas completas tratam da vida toda,mas porque ninguém as lê e eu nunca vi nenhuma que mostrasse aspectos menos airosos da trajetória pessoal de Marx.Certo: sempre há uma justificativa de não tratar de problemas pessoais e este critério seria absoluto e exigivel sempre,se não houvesse uma exploração politica por trás do endeusamento de Marx , dentro do culto à personalidade de Stalin.

Como muita gente segue este endeusamento,principalmente jovens radicais que associam a utopia de Marx (que não é só dele) ao bem estar absoluto da humanidade,deve-se fazer uma devassa cautelosa ,mas firme na vida de Marx e provar o óbvio:que ele era uma pessoa somente.

Logo na época do filme sobre o jovem Marx,após a revolução de 1848,precisamente 1851,Marx ficou separado de sua esposa Jenny von Westphalen.Jenny foi pedir ajuda para a situação da família ,atingida pela derrota de 1848.

Em 1890, numa carta,Eleanor Marx,filha caçula explica a Laura sua irmã mais velha, as circunstâncias em que ocorreram os fatos biográficos que narro aqui.Eu reproduzo um texto em espanhol do livro de J.c.Ruiz Franco,” El bastardo de Marx”.

“Todo comenzó cuando, en agosto de 1850, mi madre viajó a Holanda para pedir
ayuda económica al tío de mi padre, Leon Phillips.”

Eleanor cita um bosquejo de biografia de Jenny sobre seu marido:
“De Breve bosquejo de una vida memorable (de Jenny Marx)
En agosto de 1850, aunque estaba lejos de sentirme bien, decidí dejar a mi
hijo enferme e ir a los Países Bajos para obtener ayuda y consuelo del tío de Karl (…) El tío de Karl estaba muy mal dispuesto debido a los efectos
desfavorables de la revolución en sus negocios y los de sus hijos, odiaba la
revolución y los revolucionarios y había perdido el sentido del humor. Se
negó a prestarme ayuda, pero cuando ya me iba me puso en la mano un
regalo para mi hijo menor, y vi que le dolía no estar en situación de darme
más (…) Volví a casa con el corazón afligido.”

Eleanor tomara conhecimento de que na ausência de sua mãe ,seu pai Karl Marx teve um affair com Helene Demuth,criada da família.

Assim Eleanor,nesta mesma missiva,explica as razões para este acontecimento:

“Supongo que el Moro abordó a Lenchen porque se sentía solo, o tal vez fue
solamente su apetito viril lo que le llevó a acercarse a ella. Sea como fuere, hubo un
affair entre los dos, y lamentablemente para ellos hubo un embarazo que pronto fue
imposible de ocultar a mi madre. En marzo de 1851 vino al mundo Franziska, mi
hermana, que sólo llegó a vivir un año, y en junio sucedió lo inevitable, el nacimiento
del hijo de Helene. Aún me impresiona ver el laconismo de mi madre en sus
memorias al referirse al acontecimiento.

A comienzos del verano de 1851 ocurrió algo de lo que no volveré a hablar,
pero que aumentó en gran medida nuestras preocupaciones privadas y
públicas
Por supuesto, Möhme se refería al nacimiento de Freddy, que vio la luz el 23 de junio
de 1851, en la casa que mi familia ocupaba en el número 28 de Dean Street, en el
Soho . Por lo que yo sé, mi padre era bastante vigoroso, con un fervor sexual
bastante marcado, y mi madre le complacía en la medida de sus posibilidades. A
pesar de nuestras ideas avanzadas, mi padre seguía creyendo en sus derechos y
prerrogativas como varón, por encima de la mujer; por ese motivo tuvieron tantos
hijos, a pesar de su mala situación económica. Lenchen, en cierto sentido, era como
su segunda mujer, ya que se hacía cargo de casi todos los asuntos cotidianos de la
familia. En ausencia de mi madre, con la potencia sexual de mi padre y a su lado una
mujer de treinta años de buena presencia, mi padre tuvo relaciones con Helene, quien
posiblemente accedió con gusto, con el cariño y la admiración que siempre sintió por
el Moro. Mi madre estaba lejos y no tenía por qué enterarse de nada. Pero la
naturaleza les jugó una mala pasada en forma de hijo no deseado.”

Eleanor se refere a estes fatos biográficos de Marx fazendo considerações psicológicas que se aprofundaram no inicio do século XX,quando ela tomou conhecimento inclusive do pensamento de Freud.Na carta acima ela usa memórias de sua mãe,que chama de Mohme,maezinha ,e se refere a Helene Demuth como Lenchen apelido dado a ela pela família.

Freddy é o nome da criança que nasceu desta união breve de Marx com a criada.Eleanor toma conhecimento deste episódio anos depois da morte de seus pais e os confidencia a Laura.

Mas há mais .Tendo havido a concepção da criança ,para não perder o seu casamento com Jenny Marx pediu ajuda a seu amigo leal Engels.Note o leitor que até aqui Jenny não sabia de nada.

Prossegue Eleanor:

A comienzos de 1851, su embarazo era evidente, así que mi padre y ella, en secreto,
tuvieron que inventar alguna explicación. No podían reconocer, ni ante mi madre ni
ante los amigos de la familia, y menos ante la opinión pública, que él era el padre.
Así que el Moro recurrió a su íntimo amigo, conocedor de todos sus secretos, no sólo
para contarle el asunto y con ello aliviar sus penas, sino en busca de ayuda y quizá de
algo más.”
Ela cita uma carta de Marx a Engels datada de 31 de Março de 1851:

De: Karl Marx
A: Friedrich Engels
31 de marzo de 1851
(…) Por último, para acabar de rematar la situación de un modo
tragicómico, existe un secreto que te revelaré en pocas palabras. Pero justo
en este momento me interrumpen y tengo que acudir junto a mi mujer, que
está en cama, enferma. Así que dejaré el asunto, en el que tal vez tengas
cierto papel, para la próxima ocasión.”
E de novo 2 de abril de 1851

De: Karl Marx
A: Friedrich Engels
2 de abril de 1851
Respecto al misterio, no te escribiré nada sobre él, ya que, sin importar lo
que me cueste, te visitaré a finales de abril. Debo apartarme algún tiempo
de aquí.”
E continua a caçula:

El 17 de abril, mi padre viajó a Manchester para pasar unos días con el General(General era o apelido que a família dava a Engels porque ele era estudioso de História militar,pensando inclusive na revolução), lo
suficiente para explicarle el mystère y convencerle del papel que tenía que representar
en la tragicomedia. Dado que el General había estado en Londres hasta noviembre del
año anterior y había visitado con frecuencia la casa de los Marx, habría contado con
oportunidades de tener relaciones íntimas con Lenchen. Además, como mi madre era
sabedora de la situación un tanto irregular del General en lo relativo a las relaciones
de pareja y el matrimonio, creyó que éste era el padre, sin dudar ni un ápice de la
historia inventada. Mi madre, además de estar siempre orgullosa de su origen
aristocrático, era muy conservadora en lo referente al matrimonio y nunca aprobó la
—para ella— escandalosa vida del General con las que ella llamaba concubinas. Así
que, ya que Engels era una especie de libertino, cabía la posibilidad de que hubiera
seducido a la inocente Lenchen para gozar de su cuerpo, y la consecuencia no
deseada era ese visible embarazo que ella mostraba en ese momento. Engels
demostró su lealtad a mi padre una vez más, si bien no accedió a ser el padre a
efectos oficiales, por lo que, cuando Helene inscribió a Freddy en el registro de St.
Anne de Westminster con el nombre de Henry Frederick, dejó en blanco el espacio
reservado para el nombre del padre y le puso su apellido, Demuth.”

Estes relatos são importantes para explicar mais detalhadamente coisas que já são conhecidas há muitas décadas aqui no Brasil.Isto tudo não é um drama terrível a conspurcar a família e o comunismo,mas ele se torna importante diante de um certo moralismo do movimento,que permanece até hoje,juntando uma vida quase divina do “ fundador científico do socialismo” e o comunismo mesmo.

Quando isto foi revelado a resposta aqui no Brasil sempre foi a de relativizar, pondo no contexto temporal a culpa,mas acaso,eu pergunto: tais ocorrências não transcendem a sua época?Não havia em Marx e no movimento um desejo real de prever o futuro, de construir um futuro melhor que já devia valer para os proceres do movimento?Não havia acusações de que estas coisas eram tipicas do comportamento burguês?Esta última conceituação foi permanente no século XX e é por isso que não há filmes sobre o “ velho Marx” só sobre o jovem:isto destruiria alguns dogmas e moralismos de alguns totalitários de esquerda por aí.No fundo o cientificismo se torna um idealismo moral que se transmuda em dogma.Se você não está com a libertação do homem, é uma pessoa imoral,burguesa,reacionária,ajudando a propagação da miséria,mas o marxismo ,a suposta ciência está na história,precisando de valores,paar além da ciência.

Lênin complica tudo,quando,ao liderar a revolução russa ,institui como dogma moral dos comunistas permanecer como tal para a eternidade.Há uma carta onde ele diz;” Não tem esta de ser compnaheiro de viagem,tem que ser comunista a vida inteira”.Muita gente morreu sob tortura por querer contrariar isto aí...

Mas não acabou não:

Jenny von Westphalen soube depois da tragicomédia e viajou para a Alemanha.Ao retornar durante muito tempo Marx e ela não deitaram na mesma cama.

“No obstante, mi madre comenzó a sospechar de la historia,
posiblemente porque entre mi padre y Lenchen surgió una especie de lazo íntimo que
antes no existía. Los enemigos de Marx también empezaron a hacer correr rumores.”

e ela cita:

De: Karl Marx
A: Joseph Weydemeyer
2 de agosto de 1851
Puede usted imaginar que mi situación es bastante mala (…) Además de lo
que le he relatado, están las infamias de mis enemigos, que nunca se
atreven a atacarme abiertamente, pero que están intentando vengarse
poniendo en entredicho mi buen nombre y haciendo circular las más
inefables calumnias contra mí (…) Mi mujer, que está enferma, se siente
peor cuando los estúpidos chismosos les hacen llegar todas esas
habladurías. La falta de tacto de algunas personas en este sentido suele ser
enorme.
Así que al final tuvieron que contárselo a mi madre, que sentiría como si recibiese
una puñalada en lo más profundo de su corazón. Su amado marido y su querida
amiga y confidente —más que criada— habían aprovechado su ausencia para tener
relaciones sexuales. Por supuesto, Möhme guardó silencio por el buen nombre de la
familia y por el bien de la causa comunista, pero el suceso debió dejar huella en su
naturaleza enfermiza y su carácter histérico. Supongo que tampoco quiso divorciarse
por esos mismos motivos.
“

Depois de décadas eu encontrei este texto,que vou analisar ainda mais,proximamente.

A justificativa da esquerda(que eu ouvi de meu pai em 1980)não acabe aqui.A ética ,a psicologia ,a filosofia humanizam mas num determinado momento deve-se reconhecer as faltas reais de Marx,que era um homem cheio de defeitos e cuja exaltação quase religiosa,que não se pode saber se ele aprovaria,é falsa e manipulatória,enganando as pessoas,os militantes, em prejuizo da verdade.Gramsci dizia:” Só a verdade é revolucionária”.


o filho adulterino de Marx

sexta-feira, 7 de agosto de 2020

Coletti e o fim dos anos 70

 

Continuando a analisar os efeitos da invasão da Tchecoeslováquia,retorno à leituras essenciais de Coletti em seu livro impactante “ Ultrapassando o Marxismo”.Impactante para muitos militantes como eu no inicio dos anos 80 ,que considerava ainda o socialismo inquebrantável e fadado ao sucesso.Na capa da tradução brasileira uma esfumaçada foice o martelo anunciavam o que viria depois,mas naquele momento isto era impensável.

Devo lembrar ao leitor o que disse no texto sobre a invasão da Tchecoeslováquia:ela acabou com os possíveis e esperados bons efeitos eventuais da desestalinização.Certo ,em nome do socialismo e do comunismo crimes ainda maiores do que os do fascismo foram cometidos,mas os (nós)comunistas reconhecemos e queremos superar este problema e criar uma alternativa ,baseada no marxismo,de uma via democrática e não violenta do socialismo e do comunismo.

Num dos artigos finais de Colletti,no texto citado,que se intitula “ crise do marxismo e dissensão soviética” o autor resume as consequencias desta pretensão de renovação e lembra que já desde 1931,com austro-marxistas como Korsch,a crise do marxismo já prenunciava a impossbilidade da alternativa.Ele cita:

Coletti faz os seus comentários,mas eu acrescento aqui uma coisa que ele diz no âmbito do livro,mas não neste passo:em última análise ele afirma aquilo que já estava potencialmente sendo atribuido a Marx e Engels desde o século XIX,após a publicação de O Capital,ou seja,de que a obsessão economicista (e cientificista)de Marx criava as condições para transformar esta ideia num modelo politico autoritário,que foi o que aconteceu.

A falta de mediações politicas e culturais no pensamento de Marx facilitou as coisas para esta perversão.Ou melhor, permitiu que a perversão já contida no ovo eclodisse.A criança já era um terato,um aborto.Porque não se adequava com o real.

Eu não tenho dúvida de que,como todos nós,Marx estaria em 1917,mas seria obrigatório que se desligasse da revolução russa em 1928,pelo fato de que neste ano ela terminou.Isto porque na abordagem metodológica e científica de Marx ele supostamente sempre deixou em aberto possibilidades de uma adaptação humanística de sua concepção,que revolução russa sepultou.Mas é discutível se estas possibilidades o eram realmente.

Um caso elucidativo é o do anti-humanismo teórico,extraido por Althusser,que virá depois aqui participar do nosso debate:Marx propõe no Capital que pelo concreto de pensamento há que acompanhar o movimento(dialético) constante e real,dos trabalhadores,dos homens reais individualmente considerados e reunidos,o que para Althusser comprova a despreocupação de Marx com um conceito geral de “humanidade”,própria segundo Althusser ,do idealismo(fixe bem o leitor esta palavra,ela vai voltar aí).Mas não há esta prova de que Marx autorizasse esta visão.Althusser procura nesta interpretação de Marx exatamente novas bases para um alternativa ,a partir dos textos fundamentais.

O fato é que Althusser confirma que a tentativa de renovação com base nos textos só degringola,porque estas lacunas de Marx,estas possibilidades não preenchidas nunca e quiçá não preenchíveis,decretam o que se disse acima da criança deformada.E mais do que isto,a inadequação do pensamento de Marx com o real,causado pelo economicismo,torna-o,como eu já falei em artigos anteriores antiquíssimos,um idealista como outro qualquer.Estas possibilidades,buscadas pelos epigonos não o eram de fato.Sá impossíveis de adaptar aos textos.

A sua oposição da ideologia(consciência falsa)diante da ciência(consciência verdadeira)distorce o real na medida em que a ideologia,mesmo falsa,pode ser verdadeira para o sujeito(cognoscente),categoria filosófica que Marx deixou de lado subsumida nas suas categorizações metodológicas,dedutivo-racionais(Aristóteles) e dialéticas(Hegel).Porque não é a ciência que desvela as condições materiais de existência,mas a prática e a prática não é só cientifica ou cientificizável,mas existencial,sem obrigatória relação com as categorias.Esta é uma contradição simplesmente escandalosa mas que expõe o cientificismo de Marx e sua datação.

As razões disto estão na referida concepção de Marx sobre ideologia e na questão da dalética.Tratarei disto no próximo artigo