sexta-feira, 29 de março de 2019

Edmund Wilson e Marx



 
Petição de Principio

Este artigo inicia uma série muito importante para mim:como não tenho tempo para fichas ,citações e como ,fazendo artigos, eu me referencio fundamentalmente,como já expliquei,às categorias e à empiria,esta série me cria a oportunidade de mostrar o que eu trago de novo e o que já foi dito,pela análise da contribuição de certos autores.O primeiro é Edmund Wilson.
Edmund Wilson é um crítico de esquerda estadunidense,muito cáustico com o marxismo.Publicou um livro famoso “ Rumo à Estação Finlândia”,aludindo ao ato de Lênin de ir até à Estação Finlândia,como representativo da transformaçao do intelectual em politico prático.O nexo teoria-prática é representado por este momento fundante da Revolução Russa.
O capitulo mais importante para mim é intitulado “ O Mito da dialética”,o qual,escrito há muitos anos se refere a conceitos e idéias que eu estou expondo aqui,sobre a inexistência real da dialética.
Para mostrar a minha integridade faço este artigo para revelar como esta questão,tão desconhecida por nossos militantes diletantes,já é antiquíssima.
No inicio do capitulo ele diz:
“A “dialética” a que se referiam Marx e Engels não era o método argumentativo de Sócrates, e sim o princípio da mudança proposto por Hegel.”
Entendam bem este parágrafo elucidativo:
“O mundo está sempre mudando, diz Hegel; porém há nessas transformações um elemento de uniformidade: o fato de que cada processo de
mudança atravessa necessariamente um ciclo de três fases.
A primeira delas, que Hegel denomina tese, é um processo de afirmação e
unificação; a segunda, a antítese, é um processo de dissociação e negação da
tese; a terceira é uma nova unificação, que concilia a antítese com a tese e é
denominada síntese. Estes ciclos não são simples recorrências, que deixem o
mundo tal com o era antes: a síntese é sem pre um avanço em re lação, à tese, pois
ela combina, numa unificação mais “elevada”, o que há de melhor na tese e na
antítese. Assim, para Hegel, a unificação representada pelo início da República
Romana constituiu uma tese. Essa unificação inicial fora realizada por grandes
patriotas como os Cipião; porém com o passar do tempo o patriota republicano
assume um caráter diverso: a “individualidade colossal” da era de César e
Pompeu, uma individualidade que tende a perturbar o Estado à medida que a
ordem republicana começa a se deteriorar sob a influência da prosperidade
romana — esta é a antítese que se dissocia da tese. Porém por fim Júlio César
derrota seus rivais, as outras individualidades colossais, e impõe à civilização
romana uma nova ordem, autocrática, uma síntese, que promove unificação maior: o Império Roma no.”


Uma forma mais elevada aparece desta relação triádica,que Edmund Wilson localiza
na Trindade Cristã,que,por sua vez ,deriva do triângulo egipcio antigo,que expressava o nascimento e a reprodução da vida(Pai,Mãe e Filho).
E prossegue Wilson:
Marx e Engels adotaram esse princípio, e projetaram sua atuação no futuro,
coisa que Hegel não havia feito.”
Realmente Hegel não projetou um futuro utópico,mas atribuiu(oportunisticamente?)aos alemães(através dele)a compreensão final do processo real do movimento.Das leis do movimento do Ser.Do mundo.Os alemães tinham chegado ao máximo de pensamento possível(tal ideia agradava muito a Hitler).
Mas Marx e Engels construiram uma utopia a sair da sociedade burguesa,cheia de contradições só resolúveis por uma sociedade superior:comunista.
Embora ambos tenham achado que virando Hegel de cabeça para cima,colocando-o com os pés no chão,a diferença do proposto materialismo dialético para a dialética hegeliana não é tão grande ,no frigir dos ovos,porque a oposição Idéia/mundo real é falsa de todo modo e aqui eu digo que em outros artigos e livros já o provei.
Inicialmente o que Hegel denomina Idéia ou Espirito Absoluto não é propriamente uma ideia como a que o sujeito forma na mente.Há uma discussão imensa se ,de outro lado este conceito se refere a Deus.Esta discussão envolveu Luckács,na sua “Ontologia do Ser Social”,que separou a ontologia de Hegel da de Spinoza,que falava num Deus panteístico.
Este “ trecho” ou “ região” do pensamento hegeliano é muito obscuro.Idéia aqui é mais afeita ao pensamento de Aristóteles,que indica uma finalidade no mundo,um sentido prescrutável,com leis rígidas e definidas.
E o espirito Absoluto ,que “ se esquece do mundo”,só é apreensível pelo espirito subjetivo.O Espirito Absoluto é uma entidade um tanto quanto misteriosa,mistica mesmo.
Quem o prova é Karl Popper ,em seu “ A Sociedade Aberta e seus inimigos”,sobre os quais falarei proximamente,num outro artigo.
Da mesma forma há uma confusão de Edmund Wilson,comum no marxismo do século XX:a tríade dialética é uma siimplificação de Engels que não se encontra em Hegel,em lugar nenhum.O que há em Hegel é o princípio da Aufhebung ,palavra não traduzível em português que designa “ assimilação/superação” e que é o princípio do movimento.
O Espirito Absoluto é como um princípio,um princípio lógico do Ser,da Physis.Não há como afirmar peremptoriamente que ele seja o Deus de Hegel,assim como o “ pimeiro motor” de Aristóteles seja o Deus deste último.A Igreja Católica,no afã de assimilar o pensamento destes autores, é que atribuiu a estes conceitos um caráter divino.Mas não é assim não.
Voltemos ao nosso tema:Marx percebeu parcialmente esta verdade quando diz no “Capital”:
Para Hegel, o processo do pensamento que, com o nome de Ideia, ele chega a transformar-se em sujeito independente, é o demiurgo do
mundo real, enquanto o mundo real é apenas a sua aparência externa. Para mim,
pelo contrário, o ideal é apenas o material após ser transposto e traduzido dentro
da cabeça do homem”.
O problema é a demiurgia deste Espirito Absoluto,mas as observações anteriores são válidas.
Mas os dois afirmam também de forma menos esclarecida:
Marx e Engels haviam declarado que todas as ideias
eram humanas, e que toda ideia estava interligada a alguma situação social
específica, que, por sua vez, fora produzida pelas relações entre o homem e
condições materiais específicas.”
E Edmund Wilson pergunta,junto comigo:
“ Mas o que isto significa exatamente? “,quer dizer o segundo parágrafo?
É aqui o nó górdio que muita gente até hoje não entendeu:tudo o que o ser humano produz em termos de ideias é parte de relações sociais e econômicas e que o sentido próprio das ideias ficava então definitivamente explicado por estas relações e condições materiais de existência.
Engels,após a morte de Marx,procurou dirimir esta visão simplista dizndo que a economia só influenciava em última instância estas ideias ou as criava.
Mas então”,pergunta Wilson(e eu) “em que sentido era verdade que a economia determinava as
relações sociais e que as ideias se derivavam delas? Se as ideias não eram
“efeitos passivos”, então qual a natureza e âmbito de sua atuação? De que modo
atuariam sobre as condições econômicas? Como poderiam as próprias teorias de
Marx e Engels ajudar a produzir um a revolução proletária?”
E o critico responde:
Na verdade, Marx e Engels jamais desenvolveram detalhadamente seu ponto
de vista. O que nele há de importante e estimulante é a ideia de que o espírito
humano virá a dominar sua natureza animal através da razão; porém Marx e
Engels acabaram levando muita gente a achar que o que eles pensavam era
justamente o contrário: que a humanidade era inevitavelmente vítima de seus
próprios apetites.”
Aqui eu acrescento duas questões,uma já batida e outra que eu ressaltei de forma radical:respectivamente,a ideia de uma inevitabilidade lógica do socialismo e do comunismo e o fato de que nem Marx ,nem Engels conheciam bem a filosofia.
Wilson cita uma passagem da vida de Engels:
(...)Engels tentou apresentar uma visão geral da dialética; porém ele já
havia confessado, quando jovem, no tempo em que estava estudando filosofia
com a maior dedicação, que não tinha muita aptidão natural para essa disciplina;
assim, só pôde apresentar um esboço do sistema .”
Na verdade nenhum dos dois tinha conhecimento profissional da disciplina.
Wilson,sobre Engels no final da vida :
Já nas cartas de Engels escritas na última década do
século, uma época em que pessoas interessadas no marxismo estavam
começando a fazer perguntas fundamentais, vemos um ancião tentando com a
maior seriedade expor sua visão da natureza das coisas, e a impressão que têm os
dois é totalmente diversa. Escreve Engels: “Marx e eu somos em parte responsáveis
pelo fato de que, de vez em quando, nossos discípulos dão maior peso ao fator
econômico do que deveriam . Fomos obrigados a enfatizar seu caráter central em
oposição a nossos adversários, que o negavam, e nem sempre havia tempo,
espaço e oportunidade para fazer justiça aos outros fatores envolvidos nas
interações recíprocas do processo histórico”.
“(...)imagem pela qual, segundo o próprio Engels, ele e Marx são em parte responsáveis — é uma árvore cujas raízes são os meios de
produção, cujo tronco são as relações sociais, cujos galhos — a “superestrutura”
— são o direito, a política, a filosofia, a religião e a arte — sendo que a
verdadeira natureza da relação entre esses galhos e o tronco e as raízes é oculta
por folhas “ideológicas”.
E eu concordo com Wilson que não era isto que Marx e Engels queriam dizer:
Sua concepção é bem mais complexa.Cada um destes departamentos mais elevados da superestrutura — direito, política, filosofia etc. — está sempre
lutando para libertar-se das limitações que lhe são impostas pelo interesse
econômico e desenvolver um grupo de profissionais que sejam
independentes
das tendenciosidades de classe
(grifo meu), e cujo trabalho tenha para com as raízes
econômicas relações extremamente indiretas e obscuras. Esses grupos podem
atuar diretamente um sobre o outro, e até mesmo sobre a base socio econômica.”

Se repararem no grifo que eu fiz acima,veremos que aqui está o fulcro das minhas críticas e da critica em geral ao problema da autonomia das ideias em Marx e Engels.
De um lado se os especialistas lutam para superar as limitações de classe ,estão diante de um problema:na sociedade atual ou na futura,comunista?Certamente na scoeidade atual e neste caso a superação do problema de classe já é algo diferente da sociedade capitalista,que pode assim ser controlada ou modificada ,de dentro(estou dizendo).Esta assertiva nenhum militante aceita porque ao final das contas contém uma legitimação do capitalismo.Há que admiti-lo se é assim.
De outro lado se de dentro um especialista cria algo novo,não ideológico,no sentido de consciência falsa(que era o de Marx),ele questiona a visão da luta de classes como motor das transformações históricas,contida no Manifesto Comunista,porque esta construção não favorece esta ou aquela classe mas as relaciona,como ensina a ciência social ,a sociologia,que nem Marx e nem Engels conheciam.
Eu já falei sobre isto em outro artigo,mas estas citações só o confirmam.
Mas há ainda um terceiro problema que reúne a autonomia das ideias e a ideologia:presos ao hegelianismo Marx e Engels não realizaram o que era muito possível de fazer diante destas suas afirmações,de que esta produção dos especialistas das diversas áreas têm autonomia e que da consciência falsa surge uma consciência verdadeira,no sentido que Gramsci construiu depois.
Como eu disse no meu artigo:o desconhecimento de Kant,por seu não aprofundamento, não os permitiu abandonar Hegel e entrar muito antes no século XX.Ainda que uma concepção rigorosa da autonomia das idéias(e do Sujeito) só fosse possível com as contribuições posteriores de outro grande judeu,Freud,havia chance sim de um avanço por parte dos dois.
Vamos ver se dois exemplos o provam:
Numa carta Engels:
Diz ele que as leis referentes à herança
evidentemente têm uma base econômica, porque devem corresponder a diversas
etapas do desenvolvimento da família; porém seria muito difícil provar que as
liberdades de disposições testamentárias existentes na Inglaterra e as restrições legais da mesma natureza na França poderão ser explicadas somente por
causas econômicas.”
E existem outros exemplos:no caso do “ Dezoito Brumário”,quando Marx reconhece,por intermédio de uma frase de Odilon Barrot “ la legalité nos tue”(“ A legalidade nos mata”), o caráter ativo do direito,como produção cultural(quiçá revolucionário);quando Engels se refere ,no âmbito da Comuna de Paris em 1871,” que a religião é uma questão de foro íntimo” ,não interferindo pois no processo revolucionário(coisa que muita gente hoje precisava entender...).
Wilson cita uma questão do “ Prefácio de 1857”,que foi desenvolvido por Luckács nos “ Ensaios sobre Literatura”:não há relação entre forças produtivas avançadas e arte de qualidade.Vide a Grécia antiga,atrasada,agrária,mas que produziu,entre outros,Homero(aqui no Brasil quem desenvolve isto é Tomzé).
Quais são pois as leis gerais destas relações consciência e condições materias de existência?Há indicios de que Marx procurou estas leis,mas depois abandonou na velhice:
Em geral, o
conceito de progresso não deve ser entendido no sentido abstrato usual.”
Mas poderia sim ter ido mais adiante.Se prendeu ao cientificismo e à lógica imanente(materialista)do mundo(mas as relações sociais são transcendentes,não imanentes).
No entanto,nós hoje,de posse destes conhecimentos,podemos perguntar se mantendo a verdade das “ condições materiais”,podemos ir além com o marxismo,tornando-o profissional.
Assunto para outro artigo.
Bibliografia:Wilson,Edmund-”Rumo à Estação Finlândia”-Companhia de Bolso,1986-Rio de Janeiro.


sábado, 23 de março de 2019

Achille Ochetto e o Imperador Hiroito IV


Aqueles que não leram ainda os artigos anteriores sobre o mesmo tema,leiam,para poder entender o que vou escrever aqui mais abaixo.
Leram?Pois bem o que quero acrescentar agora é uma análise desta atitude dos militares japoneses contra os trabalhadores de seu país,que vieram para o nosso país para ganhar a vida,diante de um Japão destroçado.
Há uma similitude entre os militares japoneses que fizeram esta porcaria e os comunistas que não aceitam a derrota.
O japoneses que usam uniforme só têm como base e fundamento de sua atuação ideologias guerreiras e não o trabalho.
Por isso se sentiam incomodados pelos japoneses que seguiam na vida,acordando 5 horas da manhã para terminar a faina às 18 horas do dia seguinte.
O militar cria uma auto-imagem quase que psicopática,pois dependente dela própria,de seu narcisismo.Este é um dos fundamentos psicológicos da ergofobia,ou seja,do horror ao trabalho.
Quando se trabalha pode-se ter alegrias,mas também,tristezas,limites e sofrimentos,coisas que o narcisismo dos militares(e outros heróis)não admite.
Herói não perde.Sob o conceito de perseverança esconde-se a incapacidade infantil de aceitar a própria derrota.
Isto se aplica aos comunistas renitentes que não aceitam a queda do socialismo real.Não todos ,mas uma boa parte,que mistura a sua vida pessoal com a ideologia.Quando a ideologia acaba a razão de viver acaba e como isto é insuportável,é preferivel criar os motivos mais bizarros para a continuação.Mas ,na vida,como na História,é preciso sempre renovar.Existem equivalentes para a utopia.Eu falei aqui na Suécia(que muita gente aí na Globo News,Folha de São Paulo incorpora[sem me citar evidentemente]),como modelo de Utopia possível.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

Marx( e Engels) é que nem Ptolomeu

Costuma-se culpar Engels por ter desvirtuado o pensamento de Marx,depois da morte deste,ao reunir sem muita lógica os dois volumes após o primeiro,de “ O Capital”.E não só em relação a este livro,mas tambem quanto ao Anti-Durinhg,o qual resume a concepção de ciência dos dois amigos autores.
Este último texto foi feito por Engels e apresentado a Marx,que com tudo concordou.
Contudo,no que tange ao Capital,a situação é diferente.Marx só completou em vida o primeiro volume ,dividido em dois tomos.Os segundo e terceiro volumes foram compilados por Engels,seu efetivo testamenteiro.E o quarto,sobre as teorias da mais-valia,por Kautsky,já que Engels havia morrido.
Este contexto todo impôs uma série de consequencias futuras graves até certo ponto,pois Engels foi acusado de desvirtuar Marx.
Esta discussão é muito extensa e eu a colocarei em outros artigos.Mas ela serve para discutir a relação entre estes dois pensadores e a interpretação que caiu sobre eles por parte dos seus seguidores.
Tanto no caso do Anti-Durinhg como no do Capital o problema central é o da concepção de ciência de ambos,aparentemente divergente.Engels teria enfatizado,contra Marx,o papel da ciência,em detrimento da História.Os marxistas se dividiram teoricamente entre os historicistas e os “ estruturalistas”:no primeiro os gramscianos e no segundo Althusser e Poulantzas.
Um capítulo famoso de “ Ler o Capital”,intitula-se “ O marxismo não é um historicismo”.
O modo-de-produção capitalista indica a justeza deste título,mas,no fundo não é possível separar uma estrutura de seus condicionantes histórico-temporais.
O tempo e o tempo histórico se fazem de determinados modos.Marx estuda o modo de ser do capitalismo,então estuda um modo de manifestação da História.O que é um modo,uma estrutura?Uma organização formal mais durável no tempo.Como o Ser e o devir,o Ser é o modo pelo qual o que existe se manifesta,segundo essências,conteúdos,substâncias e assim por diante.
Mas como disse Jean Wahl do Ser,se pode dizer o mesmo do modo e do tempo:o modo é extático ,é durável,mas não intocado pelo tempo.
Pertence ao cientificismo a convicção de que a estrutura,o modo de organização do real ,não se imbrica com o tempo histórico.São apenas durabilidades distintas,marcadas por mediações especificas.
A principal acusação a Engels é de que pelo uso cientificista da dialética(dialética objetiva)ele separou o amigo da História,mas isso,como vimos é impossível.
Contudo ,em Marx e Engels a concepção objetiva da dialética(conjuminada no Anti-Durinhg)pôs este problema na medida em que cria a ilusão de que o movimento dialético real altera o tempo histórico de maneira constante e definitiva.O tempo seria inelutavelmente dialético.
Muito embora Marx tenha se distinguido de Quesnay,em “ Salário,Preço e Lucro”,não aceitando o caráter fechado do sistema capitalista(conforme o “ Tableau Economique” deste fisiocrata),voltou ao erro pela aplicação da dialética.
Toda a questão da transformação dos preços de custo ,preços de produção em preços de venda,matéria do terceiro volume ,é distorcida por esta aplicação.
Engels não modificou nada em seu favor,ao organizar estes volumes,apenas deu seguimento a este erro.Do ponto vista editorial manteve-se o mais próximo de Marx,o que é o certo obviamente,mas não é culpa dele os problemas da dialética nos livros finais de O Capital,é culpa da dialética.Da dialética deles.
Neste sentido é que faz sentido o titulo deste artigo:como Ptolomeu formulou a teoria geocêntrica,por não ter elementos que lhe mostrassem a verdade,Marx e Engels foram induzidos a erros por entenderem a veracidade objetiva da dialética o que a ciência da natureza não confirma e não baseia.


quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

“Comemorações” de 68,a Invasão da tchecoeslováquia.


Os acontecimentos recentes da política brasileira me tiraram tempo para continuar tratando de assuntos referentes ao marxismo e à questão social,que me interessa mais.Para retomar o “ fio de Ariadne” destas reflexões sobre o marxismo,trato da Invasão da Tchecoeslováquia,que se “ comemora” neste ano.
Em 1956 Kruschev realizou o processo de “ desestalinização”.A Invasão da Tchecoeslováquia acabou com os razoáveis frutos desta auto-crítica.Apesar dos crimes de Stalin a disposição do movimento em reconhecê-los e a abertura subsequente ,o degelo ,infundiram certas esperanças de que o socialismo fosse capaz de se renovar,incorporando a democracia como objetivo fundamental e incontrastável.
As mudanças democráticas propostas por Dubcek eram uma continuidade e confirmação destes novos augúrios,mas na URSS,o governo havia mudado:Kruschev foi retirado do poder pela burocracia stalinista que ele nunca pode suprimir,dentro de seu processo de abertura.Burocracia liderada por Brejnev.
Mesmo esta burocracia poderia se beneficiar enormemente destes impulsos democráticos.Contudo os temia.
A crise de 68(talvez o ano do século)foi reprimida pelo que se denominou depois de “ Doutrina Brejnev”.Por esta doutrina toda a vez que o socialismo fosse ameaçado no leste as tropas do Pacto de Varsóvia teriam o direito de intervir.
Os fatos são bem conhecidos,mas o que me interessa é verificar as suas consequências .68 acabou com 56.68 foi o fim do comunismo,não 89.
A eventual confiança renovada no socialismo real diluiu-se para sempre,na evidência de que dificilmente ele seria apto a arregimentar massas para as suas idéias.
Para aprofundar estes temas eu escolhi analisar algumas contradições deste socialismo,através da óptica de Roger Garaudy,um comunista que já possuía um viés crítico,que aumentou com este contexto,provocando reações repressivas aos seus protestos.
Garaudy publicou um livro “ Toda a Verdade”,mas antes publicara outro,” A Grande Virada do Socialismo”,onde identificava transformações na sociedade moderna,que deveriam ser compreendidas pelos comunistas.
A crise de 68 não foi só um problema político interno dos comunistas,mas representou a cristalização de mudanças que vinham desde a  2ª Guerra:a sociedade de massa afluente;a questão geracional;o novo papel do intelectual;o problema sexual como decorrência da compreensão das contribuições de  Freud,na década de 30.
É sobre esta base que Garaudy faz as suas críticas,antes,durante e depois da Invasão.
Ele começa com estes elementos teóricos para fundamentar a sua reação diante dos fatos e se defender diante das acusações.A exigência de Moscou de alinhamento gerou repressões e até delações,algumas dirigidas contra ele,inclusive acusando-o de ser “ cristão”,etc.
A primeira citação se dá na página 34 da edição barsileira da época e corrobora com o consenso teórico a que me tenho referido nos meus artigos há anos:
“ A primeira Revolução que abateu o capitalismo (...)foi a(...) a revolução de outubro de 17(..).
(...)num país capitalista a ‘ produção pela produção’ (...)decorre de seus próprios princípios(..)de uma economia cujo motor é o lucro.
Isto não acontece nos países socialistas.(...)o socialismo começou a ser construído em países atrasados.(...).eles tiveram que realizar duas tarefas:construir o socialismo e superar o subdesenvolvimento.”
Isto contraria a teoria de Marx.Garaudy se esquece de dizer que este é o viés leninista.Para Marx o socialismo decorria de uma base industrial prévia,com uma classe operária forte.
O único país do leste industrial era precisamente a Tchecoeslováquia.Mas também a França e os países capitalistas em que a classe operária havia se organizado e crescido.
Garaudy critica o livro de Marcuse “Sociedade Unidimensional”,no qual este último estabelece que a classe operária havia se resignado ao capitalismo e não o revolucionado como preconizara Marx.Diante das greves em Paris Garaudy se ri dos vaticínios de Marcuse e de sua nova “ classe” revolucionária,os estudantes.
Mas há que se entender tudo isto de uma maneira ainda mais profunda levando em consideração coisas estranhas a Marx.
Num aspecto ,no entanto ,há que concordar com Garaudy,citando-o:
“Marx não definiu a participação numa classe  pelo meio de origem,mas pelo lugar que se ocupa no processo de produção(grifos de Garaudy).Nenhum dos três critérios que ele fornece para definir um operário refere-se ao meio de origem(p.29).
(..)nós dissemos e repetimos(Garaudy),com justa razão,que em nossa época  a ciência tornou-se uma força produtiva direta .
Assim,continua Garaudy,(...)as classes têm nova características:
1-Assim como no passado(os estudantes[grifo meu])- e como os operários-(...)não possuem os meios de produção;
2-Mas são(...)como os operários,produtores de mais-valia,fazendo parte(...)do “trabalhador coletivo” de que Marx falava nos vols 1 e 2 de “ O Capital”;
3)Há (...)um terceiro critério:subjetivo,da consciência de classe(Lukács[grifo meu]).Estas camadas intelectuais se encontram(...)em condições favoráveis  à tomada de consciência(...)quanto às contradições do capitalismo.”
Isto significa que as classes médias são produtivas também,na medida em que produzem conhecimentos.Tal devia ser explicado ao PT e à esquerda brasileira...
O trabalho produtivo,capital variável (que acrescenta mais-valia),se define pela capacidade de introduzir na produção novas qualidades e atributos.Eu penso que no setor comercial e mesmo na burguesia isto acontece,mas,neste último caso,há problemas,que eu tratarei em outro texto.
A luta ocorrida em 68 atendia mais a questões de ordem cultural do que econômicas,como frisava Marx.Marx não tinha esta visão moderna do papel das idéias.68 foi muito contra ele.
E a prática da classe operária,do tempo de Marx até  68 ,autoriza Marcuse ,pois ela se harmonizou com o capitalismo(e a classe burguesa)num reformismo sem muito objetivo.Paris 68 foi uma exceção e em grande parte uma reação às reinvindicações novas de uma sociedade nova,que os comunistas não (re-)conheciam,porque recusavam,dentro de seu espirito dogmático.
Marcuse,um dos primeiros a denunciar o caráter repressivo da URSS,se mantém no marxismo,que ,indiretamente(através de Lênin),o fundamenta,por não ter se atualizado.A  “ classe “ estudantil não tem condições ou legitimidade sozinha para a revolução de Marx.
O que os aperários tchecos queriam era esta harmonização supra-dita.Neste sentido ,do ponto de vista soviético ,eles tinham razão em invadir,mas da perspectiva histórica da construção da utopia,foi um desastre com efeitos retrogradativos que se sentem até hoje e se  sentirá nos anos vindouros.
O que eu digo é que não havia motivo para permanecer ligado à URSS,após a invasão.A dissensão China/URSS,cujo auge foi em 62,permitiu que a China se desenvolvesse livremente.
Mas os partidos ocidentais,que não tinham razão nenhuma para se manter presos à União Soviética,no mínimo adotaram uma posição ambígua,como foi o caso do Partido Comunista Italiano.
Veja o leitor este vídeo da participação de Berlinguer na Conferência dos Partidos comunistas na URSS,em 1977.
Em muitos documentários se fala do modo frio como o PCI e seu líder foram recebidos na “ Meca do socialismo”,mas a verdade é que não procedia mais fazer esta conexão perturbadora.
Em 1972 ,ao substituir na secretaria geral do PCI Luigi Longo,penso que Berlinguer,que já via a experiência da URSS como esgotada,deveria ter rompido com ela(como a  China),o que ,pelo menos ,teria salvado esta tradição de esquerda,quem sabe até aos dias de hoje.Não no sentido do comunismo,mas no da luta por uma utopia possível.
Vejam este vídeo da posse de Berlinguer
E este outro sobre as possíveis relações entre Craxi e Berlinguer,PCI e PSI
Talvez se uma postura radical tivesse sido tomada o “ Compromisso Histórico”,tivesse se realizado,porque estaria blindado com o apoio da maioria da população,impedindo(talvez, repito)a ação da Brigadas Vermelhas.
Assim ,aquilo que Togliatti separou no plebsicito de 1953(divergência entre socialistas e comunistas quanto à precedência da religião católica na Itália),Berlinguer  uniria em 72:os socialistas e comunistas.
É lógico que  a razão de recusar tudo isto é o pragmatismo politico:não romper com as bases stalinistas do partido,mas isso ,a meu ver,custou caro(menos para a China).
Neste mesmo livro citado de Garaudy o autor inclui manifestações documentais de outros líderes comunistas,como a do stalinista espanhol Santiago Carrillo.Numa alocução intitulada “ Não existe Meca do Socialismo”,feita em Moscou,ele confirma o policentrismo de Togliatti,mas na prática as ligações ,pragmáticas,com a URSS,comprometeram o eurocomunismo,que ele fundava agora.
Todo militante eurocomunista da década de 70 e 80 defendia a democracia,mas defendia a URSS também,numa contradição(mais uma)tipicamente leninista(“ A Doença Infantil”)que só afastava possíveis seguidores,acrescentando algo mais ao revérbero negativo de 68 em Praga.O eurocomunismo nunca convenceu ninguém de que a via ocidental era a única admitida,mas que era a adequada às exigências ocidentais.Isto colocava os partidos comunistas do ocidente numa situação  igual ao que sempre fora:usar a democracia para depois virar a mesa.
E quando Carrillo dizia não haver Meca do socialismo,o dizia para apoiar regimes mais do que semelhantes,como o da Romênia,de Ceausescu .
A direita na época,principalmente na França pós-68,jogou sempre no sonho(dela) de dividir o movimento comunista,como condição de legitimação dos partidos ocidentais,que fechavam os olhos aos crimes da URSS.Mas pelo mesmo pragmatismo e por esta “ necessidade de unidade”,ninguém rompeu com a URSS.Não somente estes critérios tiveram um papel nesta decisão,mas a vaidade dos líderes ,que sabiam que se dessem um passo atrás perderiam os seus lugares,como o nefando Marchais.Neste caso não seguiram a lição de Lênin “ um passo atrás dois à frente”.
Por estas razões entendo que o movimento comunista se atrapalhou numa concepção internacionalista,que não levava em conta as diferenças nacionais,procurando impor ditatorialmente(Lênin de novo)um modelo socialista,de cima para baixo,sem considerar as reinvindicações democráticas destes povos.
Guevara,antes de morrer na Bolivia(em Parga),acusou a URSS( e a China)de serem nacionalistas e chauvinistas.E em determinados trechos de Garaudy,vemos que  era verdade e como a hipocrisa tinha tomado conta do movimento comunista:as nações dos outros podiam ser invadidas,mas os interesses da URSS não se construíam por bases ideológicas ou morais.
O Partido Comunista Espanhol acusou os poloneses de ajudarem o governo de Franco.Franco usou o carvão importado daquele país “ socialista” para terminar com uma greve nas Astúrias.Os operários pediram aos operários poloneses que boicotassem esta importação,mas esta aristocracia(que faria o solidariedade depois)não fez nada.(pág.196).
A manutenção do critério nacional ,sob o internacionalismo, é inevitável e ,muito embora existam todas as justificativas para o intercâmbio entre países comunistas e capitalistas,tal favorece mais a estes do que ao socialismo.
Garaudy cita na pág. 199:
“É nomal que os países socialistas mantenham intercâmbios(...).Mas como sublinhava Fidel Castro em seu discurso na OLAS de 10 de agosto de 67,existe uma diferença fundamental entre  relações comerciais  e ajuda financeira,científica e técnica (...)”.
Na minha opinião não tem diferença nenhuma:o socialismo fica mais dependente e tal situação só prova o desvio da teoria de Marx,em que não é admitida uma revolução nacional.O problema do stalinismo e da revolução na URSS prossegue.
É daqui que eu parto para elaborar as minhas concepções e informar os militantes ,que repetem,por ignorância,estes erros.Caio Prado Júnior,em “ A Revolução Brasileira” se aproximou daquilo que eu acho certo:não adianta só analisar o capitalismo brasileiro(bem como qualquer um),mas a  formação social e cultural do país  e a revolução internacionalista tem que incluir a mediação nacional e construir uma mediação internacional justa ,na relação com os mais diferentes lugares do mundo.É assim que entendo  o “ daqui por diante”(utopia[que começa no tempo]{sempre}).